Guia da Semana
Arte
Por Redação Guia da Semana

Ética da sobrevivência

Desempregados há anos, o casal Armando e Eurides passa a agenciar crianças na rua para vender balas e fazer malabares, na comédia A Vida Que Eu Pedi, Adeus.

Fotos: divulgação



Globalização, crise econômica e desemprego. Com certeza você já se deparou com essas palavras diversas vezes em manchetes de jornais, programas de TV ou no seu dia-a-dia. Juntos, esses termos podem significar ainda mais para um casal de meia-idade, que despencou na classe média baixa, vê-se sem renda, trabalho e precisa apelar para a criatividade para manter um razoável padrão de vida. Tudo isso com muito humor e aquele certo jeitinho que todo brasileiro tem. Assim, Aílton Graça e Vera Mancini encarnam o casal Armando e Eurides na peça A Vida Que Eu Pedi, Adeus, no teatro Cosipa, em São Paulo.

Com a direção de Eliane Caffé - premiada pelos filmes Kenoma e Narradores de Javé - a peça se apropria da comédia para mostrar a trágica exploração das crianças que vendem balas, pedem esmolas e até fazem shows pirotécnicos em busca de um trocado nas esquinas das cidades. Reproduzindo o discurso dos abastados, o casal resolve montar uma "firma" que atua dentro da própria miséria, empregando pessoas para trabalhar no farol. O texto é de Sérgio Roveri e foi criado a partir da observação do cotidiano desses ambientes, acostumado a ver diariamente as pessoas tentando ganhar a vida sempre com novas técnicas para atrair a atenção dos motoristas.

Utilizando apenas o ruído sonoro captado nas ruas, Theo Werneck organizou a trilha, que se passa em um cenário montado por Vera Hambúrguer, recriando um apartamento de classe média baixa em um estado de total degradação. "Os personagens são genuinamente brasileiros: criativos e, mesmo em meio a milhões de infortúnios, nunca deixam de fazer piada e carnavalizar qualquer situação", aponta Aílton, reforçando o motivo pelo qual aceitou o papel. Antoniela Canto e Paulo Américo completam o elenco.


Apesar das adversidades, o casal Eurides e Armando ficam juntos para o que der e vier


O problema retratado pela peça é contemporâneo e de difícil solução - segundo pesquisas realizadas pelo governo federal, as esquinas conseguem movimentar R$ 2 milhões por mês, com uma média de R$ 800,00 por criança, e grande parte disso vai para quem não tem dinheiro. "O público vê que eles têm uma ética muito fragmentada e isso humaniza os personagens. Embora também explorem, não têm plena consciência do que estão exercendo no sistema geral da coisa, pois eles também são vítimas", revela Eliane Caffé.

"O Armando e a Eurides se agarram um no outro como a uma bóia de salvamento, enquanto tentam entender o mecanismo empresarial das ruas. O engraçado disso tudo é que conseguimos assistir Les Misérables (adaptação feita da obra de Victor Hugo, que fala da degradação humana, na França do século XIX), mas quando nos deparamos com a questão social na janela do nosso quarto ou no farol, não fazemos a mesma ponte", enfatiza Aílton, que teve como ajuda, na formação do seu personagem, suas experiências pessoais, já que antes da carreira de ator teve um contato muito próximo com as ruas, trabalhando como feirante e fiscal de van.

O espetáculo marca o início de Eliana Caffé no meio teatral, já que, até então, a diretora só havia trabalhado com cinema. "No cinema é tudo fragmentado e o diretor é responsável pelo corte e pela montagem. Já no palco, o ator tem a vivência do todo e a cada dia ele pode descobrir coisas novas e ir transformando o espetáculo", destaca Eliana. A peça fica em cartaz até 2 de agosto.

Serviço: A Vida que eu Pedi, Adeus
Teatro Cosipa Cultura
Endereço: Av. do Café, 277 - Vila Guarani 
Horário: sextas às 21h30; aos sábados, às 21h; e aos domingos, às 19h
Telefone: 5070-7018
Ingresso: R$ 40,00 e R$ 50,00

Atualizado em 6 Set 2011.

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