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Por Redação Guia da Semana

História da Várzea

Jairo Foto: Getty Image
Começa o jogo em plena Praça do Correio, Sem Camisa x Com Camisa. Cinco minutos de bola rolando e os jogadores estão vermelhos e empapados de suor. O gramado cobre o chão do dia-a-dia e já está se desfazendo. A platéia não torce, assiste calada. Muitos são camelôs em fim de expediente, levam suas mercadorias nas costas, estavam apenas passando e resolveram parar.

Em uma disputa de bola, um tênis velho voa, um senhor de pele avermelhada comenta "Vixe, essa aí foi difícil!" e gargalha. O jogo segue tranqüilo, a torcida aumenta. O craque dos Sem Camisa arrisca um chute à gol. "Que canhão! Uma dessas estoura a mão do goleiro, ainda mais se está sem luva", diz o mesmo senhor avermelhado. Ele assistia ao jogo com paixão e um pouco de saudade. Seus olhos miúdos, cercados por rugas profundas, acompanhavam a atentamente à bola, mas às vezes o olhar ficava perdido.

Quando questionado se não gostaria de entrar em campo, responde com um sorriso, "eu já joguei muito, passei por vários times, mas o melhor foi o Ajax de Guarulhos. O time era Paulinho, Pardal, Zebrinha e Elias, eu. Eu sou o Elias. Mas, me chamavam de Palhinha porque eu tinha o cabelo igual ao do jogador do Corínthians, sabe?" Jogava em qualquer posição do meio de campo ao ataque, só não queria ficar na defesa.

O Ajax de Guarulhos, tem o nome inspirado no famoso time holandês Amsterdamsche Football Club Ájax, mas a homenagem ao país também está nas cores, assim como a seleção batava, seu uniforme e seu brasão são cor de laranja.

Elias se gabava de ter disputado o Desafio ao Galo, um torneiro de futebol de várzea transmitido semanalmente pela TV Record. Os jogos ocorriam no Clube CMTC, na Avenida Cruzeiro do Sul, São Paulo. Este era o único campeonato do tipo transmitido pela televisão.

No final da década de setenta, o Ájax era o melhor. Só havia um time capaz de abalar sua invencibilidade, Volkswagen. Manhã de domingo, a grande final, Ajax contra Volkswagen, arquibancada lotada, famílias inteiras foram prestigiar. Jogo truncado. Zebrinha pediu a bola, mas Palhinha já sabia qual seria o drible perfeito. Sozinho, passou pela defesa, foi para canto e chutou. A bola fez curva, ou, como diria Elias, "foi pá, canhão, e a bola fez uma cubra[sic] que ninguém acreditou", não tinha como o goleiro pegar. E assim, o time de Guarulhos ganhou, aquele foi o único gol da partida. Agora, cabelos grisalhos, calvo, gordo e com o rosto inchado de quem costuma beber demais, lembra de quando era Palhinha, a torcida gritava e o jogava para cima enquanto ele segurava a taça. Os olhos miúdos ficam marejados, mas a saudade se quebra em uma gargalhada. "Foi só o meu gol!" E este foi apenas um de cinco títulos conquistados por Palhinha no time.

"Aquilo que era futebol, o pessoal queria ver jogo de verdade, hoje em dia é feio". Certa vez, Palhinha deu um chapéu que humilhou o zagueiro, que ficou irritado e deu-lhe um soco nas costas e jogou ao chão para fingir que não tinha feito nada. O juiz viu, deu cartão vermelho pela falta e ambos saíram do jogo, um expulso e outro machucado. Ele ficou dois meses sem treinar.

Como jogador, ganhava o equivalente a uns cem reais, o que não era o bastante. Acha que poderia ter jogado nos melhores "Corínthians, Palmeiras, São Paulo ou Portuguesa, podia ter ganhado milhões", mas não quis. Resolveu largar tudo e montar o próprio negócio. Assim, ele não tem patrão, não precisa prestar contas a ninguém. Tem menos dinheiro, porém se sente mais livre "o Ronaldinho Gaúcho ganha muito, mas não pode ficar doente, não pode errar, eu posso". Prefere ganhar pouco, mas ter liberdade. Elias está satisfeito, já foi famoso e obteve sua glória, mesmo que pequena. Hoje, divide suas histórias com quem quiser ouvir e é mais um senhor, desses que somem na multidão.

Quem é a colunista: Talita Xavier.

O que faz: Jornalista.

Pecado gastronômico: Shimeji com flor de lírio.

Melhor lugar do Brasil: Camburi

Fale com ela: [email protected]


Atualizado em 6 Set 2011.

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