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Arte
Por Redação Guia da Semana

Não basta ter boa voz?

Colunista escreve a respeito das celebridades instantâneas que existem em todo o mundo, mas não são valorizadas da maneira que merecem.

Foto: Getty Images


Assim como a grama da vizinha é sempre mais verdinha, porque será que a vitrola dela também está sempre tão melhor que a nossa? Por que será que não nos contentamos com o que temos, com o que ouvimos, e, sem querer insistir em chavões, só valorizamos o que é bom depois que já é tarde e não temos mais?

Nos últimos dias, convivemos claramente com isso no mundo musical. Susan Boyle, uma senhora inglesa perto dos 50, com aparência pouco comercial, vira hit no YouTube, após aparição no programa Britain´s Got Talent. Sistematicamente, surge, poucos dias depois, Hollie Steel, com apenas 10 anos, cantando demais. Sem querer tirar o mérito de ambas, mas é justo com nossos artistas idolatrá-las tanto assim?

Guardadas as devidas proporções de talento, gênero e estética, quantas Susans ou Hollies já não vimos por aí? Robinson Monteiro, Caio Mesquita (aquele saxofonista mirim do Raul Gil), Liriel... Tantos artistas de talento, devidamente encerrados a aparições em programas dominicais de gosto duvidoso.

Com tanta urgência por descobrir coisas novas, nossos ouvidos acabam deixando passar coisas muito boas. Isso não vem de hoje e nem acontece só em âmbito nacional. Vamos olhar um pouco para a história da música? Deixo claro que não listo predileção por nenhumas dessas bandas, apenas registro artistas que marcaram época. E ressalto nossa indiferença a eles, o que possibilita o fenômeno Susan Boyle.

A geração do festival de Woodstock, extremamente criticada e acusada (até) de espalhar o vírus da AIDS, com a propagação das drogas e do amor livre, foi importante nos anos 70, com Creedence, The Who, Grateful Dead e Janis Joplin. Tal geração foi devidamente sufocada nos anos 80, pois a moda passou aos sintetizadores do The Cure, U2 (Bono já fez muita coisa de gosto duvidoso), The Pretenders, Man At Work, A-ha e Culture Club.

Essa estética disco dos anos 80, responsável por enterrar os filhos de Woodstock, sofreu o mesmo com os implacáveis anos 90. Green Day, Prodigy, Blur, Oasis, Foo Fighters e Radiohead desplugavam os timbres oitentistas. Paradoxalmente, a modinha setentista voltava. Começaram a surgir flashbacks e fomos nos acostumando ao efeito naftalina, como quem tenta fazer justiça a um passado que não teve seu devido valor reconhecido. Até as calças boca-de-sino voltaram a circular, no melhor estilo Motown.

Chegaram os anos 2000. Os anos 90 ficaram tachados, pela mídia, como uma década pouco criativa, uma entressafra. E, como moda nunca é por acaso, alguém percebeu que os revivals oitentistas estão para os anos 2000 como os revivals setentistas estavam para a década passada? Até o Ursinho Blau Blau andou aparecendo em festas trash pelas pistas de São Paulo recentemente.

Só para citar alguns, nos anos 2000 surgiram Evanescence, Nightwish, Coldplay, Marroon Five, Jack Johnson, Jason Mraz, Colbie Cailat... Será que teremos que esperar até 2020 para ouvirmos elogios ao Coldplay? Claro que eles existem, ganham prêmios, mas você nunca ouviu falar que eles são chatos e melancólicos? Ou que Evanescence é muito pop e se afastou das origens de gothic rock (ou seja lá o que for aquilo)? Quando aprenderemos a desfrutar sem rotular? Não vejo problema com a produção musical.

Década após década, ouve-se que "não se faz nada de bom ultimamente". Mentira. A grama e a vitrola da vizinha sempre parecem melhores. Quando nos dermos conta de que a nossa grama e nossa vitrola também podem ser excelentes, passaremos a ter uma relação melhor com a música, dessa e de qualquer outra década. Mesmo que nossa vizinha seja Susan Boyle.

Leia as colunas anteriores de Rafael Gonçalves:

Pânico no Palco

Grammy 2009 - Eu já sabia

Que Crise?

Quem é o colunista: Countryboy louco por Michael Jackson. Umroqueiro apaixonado por Big Bands. Um bluesman que ouve Haydn eStrauss para dormir.

O que faz: Jornalista do Guia da Semana, compositor, violonista e cantor.

Pecado gastronômico: Chocolates, churrasco (feito por mim) e molhode alho caseiro da vó!

Melhor lugar do Brasil: Qualquer um que comporte a equação praia +violão + amigos.

O que ele ouve no carro, em casa e no IPod: Darius Hucker, Fito yFitipaldis, Django Reinhardt.

Fale com ele: [email protected] acesse o site da sua banda!


Atualizado em 6 Set 2011.

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