Guia da Semana
Arte
Por Redação Guia da Semana

Nem Sempre rir...

...é o melhor remédio.

Foto: Sxc.Hu

Em Monólogo da Velha Apresentadora - texto de Marcelo Mirisola interpretado por Alberto Guzik, no papel da velha, e Chico Ribas, como "ponto" - são dois aspectos principais a serem analisados: texto e interpretação. O que parece ser um princípio óbvio, desvenda um dos aspectos mais preciosos do trabalho: a capacidade simultânea das duas coisas serem independentes e complementares.

Tal relação, historicamente, vem determinada no início pela submissão da cena ao texto, para passar depois ao seu inverso, com o surgimento dos grandes atores românticos e, mais tarde, da figura do encenador. O preceito que estabelece maior parâmetro à dramaturgia fundamenta-se na poesia como acesso maior do artista ao sublime, valor substancial de permanência ao encontro do indizível, possível apenas aos escolhidos, a quem é dada sobre-humana capacidade no atingir o etéreo pelas palavras. Já no caso do ator, está o homem como centro do saber e da criação em sua plenitude, dada sua capacidade de compreensão de si e do meio, único capaz, portanto, de representar e sugerir a verdade conforme sua existência. Uma dialética sem resposta, evidentemente. Um entende a criação como divino, o outro como necessidade humana.

Sendo o teatro uma junção inegável dos dois pólos - texto e atuação, sublime e real - acompanhamos no contemporâneo a procura frenética por desmistificações, mecanismos contrários à divinização da criatividade e concretude do saber. Processos que arriscam sombrear as margens e transformar essa concretude numa supra-realidade efetiva e deformada, eletiva e ficcional.

Mirisola atua como personagem ocular da história, indo além do habitual acompanhamento narrativo para conduzir erros e absurdos como fatos sóbrios e acontecimentos reais em invencionices programadas. A distorção do que ser de fato verídico leva a tudo ser assumido como possível por uma qualidade própria de espectador: aquele que necessita de uma dose diária de realidade e que, portanto, busca acreditar no mais improvável. Na outra ponta, estão os abstêmios de fatalidade, em constante procura por um pouco de imaginação e desapego ao real.

Se o texto de Mirisola avança sobre a capacidade de mentir e, melhor, mentir que mente, por vezes, é necessário dar possibilidade de acesso a tantos universos, e é aí que a figura do ator ressurge para trazer espaço ao personagem ator, lembrando sempre que, tradicionalmente no teatro realista, cabe ao ator fingir ser outro, construir esse outro sobre si, e não o que assistimos com a apresentadora, quando o personagem surge para recompor o ator.

Alberto Guzik não é qualquer figura da cena teatral. Crítico dos melhores de sua geração e, ainda que distante das páginas de jornal, entre muitos dos novos, professor, romancista, integrante dos Satyros e parte do que restara do carisma teatral genuíno. Vê-lo loiro, em compridos fios lisos, tão infinitamente distantes de sua figura sóbria, é constituir um personagem que leve em conta a história de quem o vive. A velha, Febe Camacho, foge da construção estereotipada do travestir comum aos intérpretes homens em papéis femininos, e passa a ser apresentada como face mentirosa do ator impossível de não ser reconhecido a cada gesto, em cada grave desenhando as palavras.

O Monólogo da Velha Apresentadora abusa da acidez própria e esperada de Mirisola. Vai além da racionalidade do bom tom para compor uma provocação direta e beneficamente desrespeitosa com o espectador. É impossível não se perguntar, ao fim, por que tanto rimos? O desconforto do riso fácil atinge nossas certezas ramificando-as a um panteão indecifrável sobre nossas indulgências e preconceitos latentes porém fingidos escondidos.

A peça destitui o sublime da criação para que nos compreendamos pelo aspecto mais real de quem somos: a abstração que compõe nossa individualidade e que, no entanto, faz-nos iguais. A hipocrisia do riso perdido, a sabedoria da história possível, o reencontro com a verdade de um personagem assistido e reconhecido na perspectiva da personalidade do intérprete. Enquanto Mirisola inverte a condição da hierarquia da palavra para submete-la à concretude de uma história reinventada, como se houvesse de fato a história inicial, enquanto Guzik ressurge ícone na existência de uma personagem que o identifica ser quem é, o espectador enfrenta a si mesmo e se descobre completo apenas ao perceber o vazio que o tornara distante de ambos os pólos: sublime e concreto.

Deixamos em algum lugar nossa capacidade em nos re-visitarmos personagens pertencentes à história, mas também não atingimos a capacidade de nos compreendermos diferentes do que somos. No riso provocado por Guzik e Mirisola há um epicentro entre os dois lados, e é aí que a face volta à seriedade e o sorriso se esvai, no reconhecimento de estarmos aprisionados ao grotesco.

O Monólogo da Velha Apresentadora. Um espetáculo para assistir de coração aberto para que possa ser perfurado e renovado.

Leia as colunas anteriores de Ruy Filho:


Sem Ego, o artista está fadado ao desaparecimento

O som da chuva em nossos silêncios

Um espetáculo não se resume ao palco



Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: carpaccio de pato do Piselli.


Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.


Fale com ele: [email protected] ou acesse o blog do autor


Atualizado em 6 Set 2011.

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