Guia da Semana

O inferno divino dos Satyros

Colunista fala sobre a peça Divinas Palavras.

Foto: divulgação


É impossível adentrarmos ao Espaço dos Satyros sem termos nas mãos um pouco de suor proveniente da expectativa. Na calçada, amigos se reencontram, artistas diversos circulam com naturalidade. Passamos da bilheteria às cadeiras, ao badalar do sinal, cientes de que tudo pode acontecer a partir de então. E as primeiras imagens revelam a grandiosidade perfeita dos figurinos criados por Márcio Vinícius. Desfila o barroco e seus babados sobrepostos em volumes, surgem representações caricatas das vestimentas marginais das ruas. Em Divinas Palavras, os Satyros retornam ao texto de Ramón Dell Valle-Inclán pela via do grotesco referenciado em Goya e Bosch para construir um devaneio sobre a degradação da humanidade.

Tão quanto barroca, as personas se revelam múltiplas e versáteis, apresentando o Homem em sua capacidade mais primitiva de adaptação pela sobrevivência. E não cabe aqui apenas o sentido biológico do existir, mas, sobretudo, a facilidade no desvencilhar de quaisquer fundamentos morais em nome da melhor opção. Nesse caso, mais do que nunca, o poder de existir sobre os demais.

Ivam Cabral interpreta deliciosamente Lauriano, deficiente físico e mental, disputado por todos por sua capacidade de traduzir a piedade alheia em renda. O benefício fácil da exploração caracteriza mais do que o mero ato. Exibe a condição que vivenciamos tão claramente por aqui, nos trópicos, de chafurdar em restos. Nada é mais representativo da situação atual que a figura paralítica e imbecilizada de Lauriano. E em Divinas Palavras, Ivam traduz mais a apatia do nosso comodismo do que em qualquer outro personagem já por ele feito.

Lauriano expõe as transformações sofridas pelo Homem pós-Guerra: a perda da identificação do coletivo simultânea a incontrolável capacidade de capitalizar seja lá o que for. No mundo moderno aprendemos a valorizar o lucro acima de tudo; abandonamos o desejo pela compra fácil e transitória do prazer, capitalizamos as emoções em respostas quantitativas aos interesses imediatos e superficiais do modismo; esquecemo-nos de imaterializar as relações e as conseqüências de nossas vontades.

Divinas Palavras reconduz a áurea negra das pinturas de Goya para o contemporâneo recriando-a nos infernos de Bosch. Um encontro entre o medievalismo do pavor místico e a monstruosidade humanitária. Agora, o pavor místico se confronta pela capitalização do sentir. Agora, a monstruosidade se revela na pequenez da existência sem valor. Mas de maneira a contribuir na poesia do silêncio de Lauriano a pureza submersa entre os destroços, como um fio frágil de esperança esquecido amarrado em qualquer lugar da história, pronto para ser recuperado.

Mais uma vez, Os Satyros incomodam a burguesia latente nas morais contemporâneas, impondo ao público o suplício de se admitir desagradável. Caminhar pelas esferas do fazer produtificado, conforme as imbecilidades do mercado, seria destruir o que de mais saboroso há nos Satyros: o risco corajoso do incômodo. Em seus palcos é preciso reconhecer a importância de reencontrar o que ainda há de humano em nós, ainda que isso só seja possível pela falta de bons adjetivos.

Leia as colunas anteriores de Ruy Filho:

? Como lidar com os códigos dramáticos frente as modificações feitas em montagens de clássicos?


? A contemporaneidade de uma tradição


? Closer


? Gob Squad


? O teatro de Henrique Diaz


? Mais Quero Asno... e os recursos do fomento


? El Chingo e os fantasmas de cada um


? Com prosecco e qualidade


? O teatro candango e a morte de todos os dias


? Entre o silêncio e a mudez


? A ciência como pretexto dramático


? A alma decepcionada frente à realidade


Quem é o colunista: Ruy Filho.

O que faz: diretor e dramaturgo.

Pecado gastronômico: carpaccio de pato do Piselli.


Melhor lugar do Brasil: Salvador fora de temporada.


Fale com ele: ruyfilhosp@yahoo.com.br ou acesse o blog do autor

Atualizado em 6 Set 2011.

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