Guia da Semana
Arte
Por Redação Guia da Semana

Reconhecimento

A dificuldade para conseguir patrocínio, de não ser conhecido e a concorrência são alguns dos obstáculos enfrentados por produtores independentes.

Foto: Getty Images


A coluna deste mês vem com certo toque de rancor no que tange às dificuldades de se estabelecer profissionalmente na cena teatral carioca. Como todos os meus leitores sabem, além de colunista, sou também escritor, poeta, produtor e dramaturgo, residente no Rio. Minha história não é diferente da de nenhum outro "clandestino" que chega à Cidade Maravilhosa. Pelo contrário; algumas vezes, ela chega a ser até clichê.

A fase inicial de namoro com a cidade, com o meio artístico, onde tudo cheira a novidade, durou pouco mais de três meses, até perceber que o buraco era bem mais embaixo. As oportunidades para quem vem de outras localidades são poucas e restritas a um grupo cada vez menor.

Um grande autor, que não vou citar, uma vez me disse que as pessoas no Rio, algumas vezes, se comportavam como se ainda estivessem na Corte ou pensassem estar. E, neste ponto, tenho que concordar. Muitas vezes, o que vale por aqui é a política do "ser amigo do Rei", seja ele quem for naquele momento. O segredo está em descobrir quem será o próximo rei e correr atrás, antes que o outro o faça.

Na minha peregrinação para levantar um projeto teatral que nasceu há pouco mais de um ano, tenho me deparado com as inúmeras dificuldades que qualquer produtor que ainda não seja conhecido passa.

O primeiro ponto é a captação de patrocínio. Buscar recursos na iniciativa privada é quase uma tarefa para Hércules quando falamos de teatro. Grande parte dos recursos investidos em teatro é oriundo das leis de incentivo. O fato é que a seleção proposta pelas áreas responsáveis de algumas empresas acaba priorizando projetos que tenham atores conhecidos no elenco, grandes diretores, produtores reconhecidos e forte apelo midiático. Infelizmente, não é o caso da maioria das produções. Em vez de democratizar o acesso, a política cultural atual acaba por contribuir para uma concentração de recursos na mão de poucos produtores. Ter um projeto aprovado em lei de incentivo não é garantia de nada. A lei lhe dá apenas a oportunidade de poder sair por aí tentando passar o pires para que seu projeto aconteça.


O segundo ponto é a difícil conquista da credibilidade de quem está chegando neste mercado. Mesmo com uma grande rede de contatos, pouca gente está disposta a acreditar e investir no seu trabalho. Na minha busca por pauta em espaços públicos e privados, percebi que, pelo fato de não ser conhecido neste mercado, tudo se torna mais difícil. Um determinado responsável por um teatro público no Rio, em uma reunião, me disse que se, por acaso, ele viesse a me dar uma pauta, seria em horário alternativo. Afinal, as pessoas que constavam no projeto, com exceção da ficha técnica, eram desconhecidas e, portanto, eu teria dificuldade em atrair público. E esta não é uma situação única pela qual passei. Existe um jogo político por trás de cada ação cultural. Já vi gente conseguir pauta com um único telefonema, sem sequer mandar um projeto. Já vi outros terminarem temporada em um teatro e seguirem para outro, enquanto uma fila de solicitações de pauta se acumula para, no fim, receberem uma resposta negativa. Esta é a realidade de quem pretende se aventurar na produção teatral e não é conhecido no mercado.

Outra lição importante que extraí das minhas experiências como produtor é manter segredo dos projetos que você pretende realizar, principalmente se você ainda não detém os direitos de determinada obra para realizá-lo. Sempre haverá alguém que teve a mesma ideia ou que estará disposto a tomá-la para si. Também não confie suas ideias a pessoas muito próximas: você sempre poderá se surpreender com elas. Os amigos geralmente se tornam um termômetro da forma como o mercado te percebe. Seja pela falta de interesse em trabalhar com você ou pelo simples fato de não acreditar no seu trabalho. Neste ponto, cito o caso de um amigo que, algumas vezes, tem comentado com terceiros que eu era o cara dos projetos que não saíam do papel. A esse tipo de comentário não cabe nem resposta, mas ele denota uma certa falta de bom senso, que cruza uma linha muito séria e denigre a sua imagem como profissional.

A estes pré-julgamentos direcionados ao meu trabalho, só tenho a dizer que sou um grande profissional e não teve nenhum momento em minha carreira, seja como artista ou executivo, que eu não tenha alcançado o sucesso nas atividades a que me propus. Quem já teve a oportunidade de trabalhar comigo sabe disso. E não tenho vergonha de dizer que sou um grande ator, escritor, poeta e dramaturgo. Se me tornarei um grande produtor, ainda é um desafio novo para poder tecer qualquer comentário. Só posso dizer que estou no caminho certo, reúno todas as condições para isso, basta, apenas, a tal oportunidade. Se o teatro carioca me dará, não sei dizer, mas sigo tentando, na certeza de que vou conseguir.


Leia as colunas anteriores de Alexandre Pontara:

Juventude Interrompida

Pterodátilos

O dono de 2010

Quem é o colunista: Alexandre Pontara.

O que faz: Paulista, radicado no Rio, Alexandre Pontara é ator, escritor e produtor cultural. É diretor da Primus Cia de Teatro.

Pecado gastronômico: Bolo Negro e Tiramissú da Doceria Chaika .

Melhor lugar do Brasil: Paraty.

Fale com ele: [email protected] ou acesse seu site


 


 


Atualizado em 6 Set 2011.

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