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Arte
Por Redação Guia da Semana

Todos queriam ser a Amy

Foto: Reprodução
A cantora inglesa Amy Winehouse
Neste último fim de semana senti um amor incondicional por São Paulo. Esqueci da fortuna que pago de aluguel, das horas intermináveis para se chegar a algum lugar, da violência, dos assaltos, enfim, como artista - ou mesmo que não fosse - me senti de certa forma recompensado.

Ainda era quinta-feira de manhã e já sentia a expectativa pelo começo de mais uma edição das Satyrianas, evento que agrega 78 horas de atividades culturais ininterruptas, como leituras dramáticas, saraus, shows, cafés literários, debates, palestras e espetáculos. Nas semanas anteriores, já havia ocorrido a Mostra do Sesc e ainda acontece a Mostra Internacional de Cinema.

Antes de vir morar aqui, toda vez que eu via na TV um show gratuito no Ibirapuera ou reportagem de um espetáculo com algum artista que admirava, ficava frustradíssimo por não ter esse acesso. É muito interessante a imagem que se vende de São Paulo. Em algum aspecto as pessoas se sentem atraídas por essa cidade.

Mais lugar comum impossível usar nesse texto um trecho da música Sampa. Mas também é impossível não remeter a algum verso dela quando se quer falar daqui.

Particularmente não sou nenhum pouco fã de cruzar as avenidas Ipiranga e São João. Muito provavelmente, na época em que Caetano escreveu tinha lá seus encantos. E vamos combinar que o que não falta é rua aqui para servir de inspiração. Se fosse compositor certamente escreveria uma sobre o cruzamento da Avenida Paulista com a Rua Augusta.

Essas sim são exemplos claros da verdadeira democracia. Por mim, ficaria horas observando as pessoas que passam, sobem e atravessam aqueles sinais de trânsito com uma coreografia descordenada e cheia de figurinos insólitos que vão desde os engravatados workaholics até os emos e suas franjas cheias de sabonete na testa.

Morar na cidade de São Paulo e não explorar os diversos pólos de cultura espalhados por todos os lados é o mesmo que ter petróleo no quintal de casa e, sem saber, não dar o menor valor a ele.

Com tanta opção na cidade não dava pra ficar em casa assistindo televisão, seria uma afronta. E nesse fim de semana meu programa foi aportar na Praça Roosevelt e me deliciar com os tipos que estavam ali sedentos por cultura (ou pelo menos mesmo fingir que estavam).

Eu, particularmente, acho incrível o trabalho que o grupo dos Satyros em especial fizeram pela Praça Roosevelt, que pra quem não sabe era um lugar abandonado. Vale ressaltar, que não só na época da Satyrianas, a praça ferve durante as apresentações teatrais, seja na platéia ou nos bares. É um ponto de confraternização entre artistas e amantes da arte.

Espalhados pela praça você via todos os tipos possíveis. Parecia que migraram pra lá um pouco de cada tribo num movimento de êxodo. Claro que uma se destacava. Não sei nem como definir, afinal sou ator e ora me enquadro nela, ora quero distância. Meninas com sandálias rasteiras, saias com desenhos indianos e brincos de pena ou hippie na orelha e meninos com calças folgadas, batas e claro, tênis All Star. Tenho um amigo advogado que fala que você reconhece ou ator ou estudante de artes cênica se tiver usando All Star e cachecol, mesmo que num calor senegalês.

Não vou me aprofundar nos espetáculos que vi, nos artistas que passaram por ali, no milho que comi na calçada dos Parlapatões enquanto esperava começar outra peça. Mas uma figura me chamou muito a atenção. Dentro da poesia concreta daquele lugar a vi, não sei se chegou direto de um show ou saiu de algum boteco da Rua Augusta. Tanto faz. Tropeçando entre a calçada disforme era a representação física da miscigenação que se formou o povo paulistano. Amy Winehouse estava na Praça Roosevelt. Como diria aquele personagem daquela novela que passou naquele canal, "Meninos, eu vi".

E se resolvesse escrever mesmo a música que pensei, a chamaria pra cantá-la. Imagina que maravilha ela tentando cantar em português com aquele sotaque britânico soltando os versos entre um gole de caipirinha e outro?

Viva as Satyrianas! Uma celebração à alegria, ao amor, à arte e, sobretudo, à valorização da cultura por meio de um acesso mais democrático.

Quem é o colunista: Guilherme Gonzalez.

O que faz: ator e produtor, um dos fundadores da Cia Teatro de Janela.

Pecado gastronômico: Mousse de Cupuaçu.

Melhor lugar do Brasil: Av. Paulista de madrugada.

O está ouvindo: White Shadows do Coldplay

Fale com ele: [email protected]

Atualizado em 6 Set 2011.

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