Guia da Semana
Cinema
Por Juliana Varella

“12 Anos de Escravidão” tem gosto de sangue e suor

Favorito ao Oscar traz história real para resensibilizar o público sobre antigas feridas raciais.

Chiwetel Ejiofor vive Solomon Northup, um homem livre que foi sequestrado e escravizado no séxulo XIX (Divulgação)

E se, de um dia para o outro, você perdesse sua liberdade? Mais do que isso: e se você deixasse de ser tratado como um ser humano? Essas perguntas são a aposta de “12 Anos de Escravidão” para sensibilizar o público do século XXI sobre um assunto que, teoricamente, já estava superado. Teoricamente.

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Chiwetel Ejiofor interpreta Solomon Northup, um personagem real cujas memórias – escritas na segunda metade do séxulo XIX – inspiraram o filme. O homem nasceu em Nova York, longe da sociedade escravista, mas foi sequestrado aos 33 anos e levado para o sul, para ser escravo.

Da noite para o dia, Northup se transforma numa mercadoria contrabandeada – uma mercadoria que pensa, questiona e briga, mas nem por isso capaz de mudar sua situação. Quando consegue ser libertado e processa seus exploradores, todos são inocentados. Qualquer semelhança é mera coincidência?

O que vemos em “12 Anos” é extremo e não há quem não feche os olhos em pelo menos uma das cenas com chibatadas. A violência psicológica também penetra a carne e choca nossos olhos pós-contemporâneos. “Isso parece mentira. Ninguém seria capaz de tratar outra pessoa dessa maneira!” – mas sabemos que seria. E foi.

Basta fingir que o outro não é igual a você, é uma “propriedade”, que o “dono” já se torna livre de culpa. Prova disso é que o público chega a simpatizar com um dos personagens (vivido por Benedict Cumberbatch): ele também é estravista, também mantém capatazes para controlar seu “gado humano”, mas faz uma ou outra concessão ao seu escravo favorito, como dar-lhe um violino. Isso faz dele menos errado?

A presença de outra escrava, vivida por Lupita Nyong'o (indicada ao Oscar como seu companheiro de cena), levanta questões sobre a situação das mulheres nesse ambiente. Não apenas sobre a violência sexual, previsível, mas também a maternidade e a ascensão social. A impressão que se tem é que as esposas dos fazendeiros são tão escravas quanto seus funcionários (sejam elas brancas ou negras), mas assumem uma postura artificialmente superior, como se dependessem da humilhação do outro para se sentirem menos exploradas.

Outros rostos conhecidos aparecem no filme. O primeiro pode passar despercebido: é a pequena Quvenzhané Wallis, de Indomável Sonhadora. Depois, encontramos um Paul Giamatti quase irreconhecível no papel de comerciante de escravos. Michael Fassbender é um proprietário de terras, muito mais desequilibrado que o personagem de Cumberbatch.

Já Brad Pitt – dono da produtora responsável pelo filme – faz uma curta e pouco adequada participação. Seu personagem é canadense, contratado para trabalhar numa construção na fazenda, que tem ideias igualitárias e abolicionistas num nível tão avançado quanto os mais liberais dos homens modernos. Ele é a voz do espectador, traduz o que ficou engasgado durante toda a exibição e coloca o escravista antiquado frente a frente com a consciência atual. O encontro, porém, é decepcionante.

No final, o que fica é aquele gosto amargo na boca – gosto de sangue e suor. Pensamos nos homens e mulheres negros que encontramos todos os dias nas ruas, no trabalho, nas universidades. Pensamos na violência dos patrões com seus empregados, nas agressões sofridas diariamente por milhões de pessoas ainda hoje. Não, não se fazem mais chibatas. Mas violência é violência em qualquer tempo e lugar.

Assista se você:

- Quer refletir sobre a história do poder e dos homens
- Quer ficar por dentro do Oscar 2014
- Tem “estômago” para filmes com violência física e psicológica

Não assista se você:

- Não gosta de filmes com violência
- Procura um filme mais agitado, com ação e/ou aventura
- Procura um filme para relaxar

 


Por Juliana Varella

Atualizado em 18 Fev 2014.

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