Guia da Semana

“Getúlio”: Tony Ramos vive ex-presidente brasileiro nos cinemas

Filme de João Jardim apela para o didatismo ao narrar últimos dias do ditador

A história estava pronta, polêmica e suculenta para ser transformada em filme a qualquer momento. Getúlio Vargas foi um homem de lábia, eleito democraticamente depois de 15 anos de ditadura, que atirou no próprio peito depois de escrever uma carta louvando a própria ousadia. A história estava pronta. Então o que deu errado?

Getúlio”, de João Jardim, narra os últimos dias de Vargas como fez “A Queda” (2004) com Hitler, e arrisca um ponto de vista doméstico como foi o de “A Rainha” (2006), sobre Elizabeth II. O foco, neste caso, é o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, a investigação decorrente e a crise de Estado que leva ao suicídio do presidente. Tudo sob os olhos de Getúlio (Tony Ramos) e sua filha Alzira (Drica Moraes).

O longa, porém, se perde em explicações. Feito um professor de História, Ramos narra a cena inicial listando fatos sobre Vargas. Exalta seus feitos, seus decretos, suas artimanhas para se manter no poder por 15 anos. Fala em primeira pessoa mas soa enciclopédico.

O didatismo se mistura ao melodrama e somos bombardeados por close-ups, frases de efeito e uma trilha sonora que serve como guia emocional: agora você chora, agora você sente a tensão, etc. Há bons momentos, como a perseguição inicial em clima quase noir, mas eles se dissolvem num todo dominado por diálogos.

Algumas sub-tramas poderiam ser desenvolvidas, como a de Lacerda (Alexandre Borges) ou a do chefe da guarda de Vargas, Gregório (Thiago Justino). O roteiro, contudo, se prende na crise do governo e nenhum dos coadjuvantes ganha tempo suficiente para que simpatizemos com eles. Quem chega mais perto disso é Alzira, mais humana e com um ou dois momentos doces de pai-e-filha, que fogem do clima gelado de gabinete.

Jardim e George Moura, seu co-roteirista, não tomam o partido do presidente, oferecendo um testemunho ambíguo do sofrimento do ditador. De um lado, “velho demais” para aguentar tantas traições; por outro, teimoso demais para admitir qualquer culpa na corrupção de seu governo. Tony Ramos segura bem o personagem, ostentando uma barriga falsa (insistentemente ressaltada por longos takes de perfil) e expressando dor e desespero em diferentes tons de vermelho, suor e lágrimas.

Num momento de reflexão sobre a ditadura de 64, um filme sobre Getúlio Vargas cai bem – faz lembrar que a opressão não começou ali e que a corrupção, que hoje incomoda tanto, já era motivo de escândalo na metade do século passado. Além disso, considerando as fraquezas do ensino de História do Brasil em grande parte das escolas primárias, nunca é demais lembrar certos pontos-chave da política nacional. O que falta, agora, é fazer cinema de verdade com isso.

Assista se você:

- Gosta de estudar a história política do Brasil
- É fã de Tony Ramos e quer ver uma boa atuação
- Procura um filme educativo sobre a queda de Getúlio Vargas

Não assista se você:

- Não gostava das aulas de História do Brasil
- Não gosta de filmes com mais diálogos do que ação
- Procura um filme emocionante e mais pessoal

Atualizado em 15 Abr 2014.

Por Juliana Varella
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