Guia da Semana

A Pior Banda do Mundo, do português José Carlos Fernandes


Palco de super-heróis mascarados e célebres personagens infantis, as revistas em quadrinhos de quando em quando trazem à baila temas pouco convencionais. Jazz, blues e rock setentista são alguns dos temas que pautam as séries American Splendor, assinada por Harvey Pekar, e A Pior Banda do Mundo, do português José Carlos Fernandes, e da revista Blues, do genial Robert Crumb.

O neurastênico fã de jazz

O insípido dia-dia de um arquivista hospitalar de Cleveland, Ohio, deu margem a um dos quadrinhos mais celebrados das décadas de 70 e 80. Nas páginas da série American Splendor, ilustrada por gente como Robert Crumb, Joe Sacco e Frank Stack, as desventuras de Harvey Pekar são reproduzidas em um estilo que flerta com o neo-realismo italiano dos diretores Vittorio De Sicca e Roberto Rosselini. Histórias aparentemente banais ganham contornos poéticos, expondo as agruras de um típico trabalhador da classe média baixa americana.

Pekar: jazz e The Who
Pekar, sujeito circunspecto e ranzinza, vive imerso em uma vastidão de LP´s de jazz. Seu cotidiano taciturno é entremeado por solos de saxofone e trompete vindos de uma antiga vitrola, enquanto suas horas livres são preenchidas por críticas e resenhas que escreve para publicações especializadas. A música - notadamente a instrumental - revigora uma existência melancólica e solitária, é um bálsamo soprado por mitos como John Coltrane e Miles Davis.

Rabugento convicto, Pekar mostra-se tolerante a ritmos como o rock ´n´ roll e o rythm & blues, ainda que dentro de um espectro estritamente artístico. Em Music Comics, o arquivista neurastênico rasga elogios aos britânicos do The Who, sublinhando o talento do baterista Keith Moon e a inquietação de Pete Townshend. A saga ainda pega carona no ônibus que leva a excêntrica Sun Ra Arkestra para algumas apresentações ao redor do país, e presta rememora a saga de gente como o trompetista Jabbo Smith e a cantora Sheila Jordan.

Traços lusitanos

O porão de uma alfaiataria abandonada abriga os encontros de um quarteto de jazz insólito. Há 29 anos ensaiando diariamente, o conjunto encabeçado pelo saxofonista Sebastian Zorn jamais se apresentou ao vivo. Se prática lhe sobra, talento é algo que definitivamente não se encontra na Pior Banda do Mundo, mote do quadrinho criado pelo português José Carlos Fernandes, admirador incondicional da música de Duke Ellington, Stan Getz, Billie Holliday, Art Blakey, entre outros.

Décadas de ensaios em vão
Nonsense e muitas vezes mórbido, o humor que pauta as pequenas histórias de A Pior Banda do Mundo tem como trilha sonora uma música impalpável, quase inatingível. Além da incredulidade que o conjunto jazzístico de Zorn provoca no leitor, outros personagens absurdos debatem-se em busca da sonoridade ideal, caso de Dimitri Sikorsky, maestro que há duas décadas labuta em busca da composição perfeita, sem, entretanto, sequer se aproximar de uma seqüência de acordes.

Costurando enredos ligeiros e de extrema sagacidade, Fernandes modela uma obra vigorosa, admirada dentro e fora do continente europeu. Seus traços são elegantes e dão o charme saudosista que embala a trama do quarteto pouco fantástico e de sua cidade inverossímil.

Blues impiedoso

Fritz The Cat e Mr. Natural são alguns dos trabalhos mais conhecidos de Robert Crumb, umas das maiores lendas do quadrinho underground. Fã de carteirinha da boa música instrumental, o desenhista leva a magia do cancioneiro americano para as páginas de Blues.

Seja nas encruzilhadas onde um bluesman pactua com o demônio, no delta do Mississipi ou nos guetos em que brotaram as primeiras melodias de r&b, lá estão as linhas certeiras de não apenas um artista, mas de um verdadeiro amante de talentos como Robert Johnson e Charley Patton.

O humor ácido de Crumb
Em suas histórias, Crumb reverencia o berço da música norte-americana; suas raízes e tradições ajudam a contar a história de uma nação. Busca, então, nas plantações de algodão do sul do país a origem do blues, desdobrando causos e resgatando personagens. O artista ainda despacha para os quadrinhos standards da época. Versos de clássicos como On The Sunny Side Of The Street são adornados pelo artista, que empresta à letra original sua visão bem humorada.

Quando dispara contra seus desafetos - sejam os musicais da Broadway ou o rock estridente dos anos 70 - Crumb o faz com um humor magistral. É hilariante a maneira como o autor desconstrói e ridiculariza a canção da Broadway On The Street Where You Live, ou ainda como ironiza maliciosamente o sucesso de Jimi Hendrix, Purple Haze.

Onde encontrar:

A Pior Banda do Mundo
Editora Devir
Telefone: (11) 3347-5703

Blues
Conrad Editora
Telefone: (11) 3346-6088

American Splendor (importada)
Dark Horse
Amazon, Fnac e outras lojas virtuais

Fotos Conrad, Devir e Dark Horse/Divulgação

Atualizado em 6 Set 2011.