Guia da Semana

Música no metrô

As opções de muitos para ganhar dinheiro numa das maiores metrópoles do mundo.

Foto: Sxc.Hu

Foi no metrô de Nova Iorque. Ele tinha um teclado pendurado no pescoço, de modo que seus dedos alcançavam as teclas na altura da barriga. A idade, talvez uns 36 anos. Como soava bem aquele homem. Como soava bem aquela música. Chamou a atenção de todo mundo.

Um senhor, que dormia embrulhado em um lençol velho, abriu os olhos. Uma moça, que lia uma dessas revistas de fofocas, perdeu o interesse em saber quem vai casar com quem. Uma criança, que brincava com seu carrinho, passou a brincar de ouvir música. Toda a estação se fez platéia. Lá estava o homem, encantando sem sair dos trilhos da afinação.

Com muita suavidade, ele oferecia suas notas a quem as quisesse receber. Eu queria. E aquela música ia fazendo cada vez mais sentido para mim. É como se ele antecipasse os acordes e frases que o público gostaria de ouvir. O homem estava sempre dois segundos adiantado na minha expectativa.

Eu que não consigo me livrar do hábito de roer unhas à espera do próximo trem, naquele momento, passei a torcer em silêncio para que nenhuma luz surgisse na boca do túnel. That I can change the world / I would be the sunlight in your universe... Que som fazia aquele homem enquanto milhares de pés andavam apressados sob sua cabeça. Pés que talvez seguissem em direção ao Carnegie Hall em busca de um ingresso. Mal sabiam eles, que o palco era mais embaixo.

E como tudo que é único dura pouco, um barulho assassinava a melodia daquele artista subterrâneo. Desobedeci à minha vontade. Entrei no trem. Ainda deu para ver uma das mãos dele acariciando um dó sustenido. Mas meus ouvidos já estavam respirando outros ares. Uma voz cansada pedia distância das portas. O trem seguia na minha contramão.

Ainda guardo comigo a voz daquele homem e sua harmonia improvisada nascendo de um teclado simples, desses que a gente encontra até em loja de brinquedo. Músico bom entra em nossa cabeça sem ser convidado. Vez em quando me pego estalando os dedos diante das notas que visitam minha memória. Notas que ouvi uma vez naquela estação. E continuo ouvindo em silêncio até hoje.

Não dá para negar a eficiência do metrô de Nova Iorque. Mas bem que ele podia esperar o final da música para chegar à estação.

Leia as colunas anteriores de Pedro Cavalcanti:

Piano pra sempre

O Rádio que queremos ouvir

Um sonho chamado Jobim


Quem é o colunista: Pedro Cavalcanti.

O que faz: Publicitário.

Pecado gastronômico: Qualquer prato preparado pela minha avó.

Melhor lugar do Mundo: Aqui e agora, como diria o Gil.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Ulisses Rocha, Pat Metheny, Chico Saraiva
 
Fale com ele: phmarcos@terra.com.br

Atualizado em 6 Set 2011.

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