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Por Redação Guia da Semana

Café seleto?

A bebida é companheira fiel na família da colunista: sua avó servia café até na papelaria da sua mãe.

Foto: Getty Images


Pontualmente às 17h, aquela doce senhora, sempre a sorrir, equilibrava as chávenas de café enquanto abria o portão de sua casa. Com ar serelepe, seguia rua afora, em chinelos, deixando o aroma de rastro. Bandeja em punho, entrava na papelaria vizinha, levando o santo líquido para meus pais, proprietários do lugar. Se houvesse clientes, ela oferecia a eles também. Era um barato vê-la ofertando café a "pseudo" estranhos.

Essa mulher era a minha avó. Em sua casa, toda hora era hora para um café. Bastava alguém aparecer para surgir um cafezinho. E, quando se ensaiava ir embora, lá vinha outra xícara. Eram formas materializadas de dizer olá e até breve.

Com o sobrenome, herdei a prática. Não importa quem é ou se faz trinta graus: sempre que abro a porta, ofereço café, sorrio e cumprimento - não necessariamente nesta ordem. A quem recusa, ofereço água. Nesta ordem. Mesmo sabendo que é um paradoxo que café venha antes de água.

Meus pais sempre foram amantes de café. Lembro quando comprávamos sacos imensos de grãos verdes vindos do interior para torrar em casa. Quando o fornecimento furava, dirigíamos 15 km até o Copan só para comprar um quilo de grão dos bons e tomar um cafezinho. Um no papo, outro no saco.

Suplício era tomar café requentado, morno e melado, aguado ou amaríssimo. Mas aprendi que recusar café é como desviar de um abraço, beijo ou aperto de mãos. Nunca se esquive de um café.

Meu avô era outro coffee lover. Passava por pelo menos meia dúzia de lindas cafeterias até se sentar, todos os dias, às 11h, em seu café preferido, na cidade do Porto, em Portugal, para tomar um gole e ler o jornal. "Esse não! É um café de estudantes...", dizia, cheio de princípios, tentando explicar que cada ponto tinha um público. As plateias mudavam, mas a cena era sempre a mesma: mesas ocupadas, sob xícaras e mais xícaras de café. Portugueses são capazes de passar horas tomando café, na melhor atmosfera parisiense. Nunca entendi como esses estabelecimentos possam dar lucro.

Em resumo: quando o assunto era café, minha família era chata. Mas tudo isso foi antes que máquinas gourmets de café expresso e 1001 blends fossem artigos domésticos. Hoje, apesar de adorar um bom expresso e ver com bons olhos a oferta de melhores blends, cada dia mais me devoto ao cafezinho caseiro. Amo sua trivialidade, o caráter democrático, o gosto de lar.

Cultivo o hábito perdulário de encher uma caneca inteira de café, ainda que não beba tudo, e de oferecer um café a qualquer um. Talvez por isso resista às cafeteiras expressas. Não quero correr o risco de agir como sovina, pressionada pelo custo dos sachês. Não me imagino em frente a meia mísera xicarazinha de expresso ou sonegando café a ninguém.


Aprecio o fato de que meu café nunca será igual ao do meu sogro, que nunca é igual ao da minha mãe, que não era igual ao da avó, que era totalmente diferente do feito pela minha madrinha - e o fato de todos serem particularmente ótimos. Não vejo por que ter em casa uma cópia expressa de café de loja, café de firma, café de consultório.

Espumo mesmo quando dizem para comprar uma máquina de expresso e só usar nas ocasiões especiais. Tem quem fique discriminando quais pessoas são ou não dignas de ganhar um cafezinho? Não é muito esquizofrênico eu mesma me considerar a especial em uns dias e ordinária em outros?

O cafezinho não é mais o mesmo. Os chatos também não.


Leia as colunas anteriores de Rosa Fonseca:

O doce sabor do mar

A Itália além do macarrão

Para comer com os olhos

Quem é a colunista: Com formações em Publicidade e Gastronomia, Rosa Fonseca é chef de cozinha, professora e colunista.

O que faz: Trabalhou em restaurantes como o Félix Bistrot e o Beth Cozinha de Estar. Hoje, atua como personal chef.

Pecado gastronômico: Chocolate e queijo da serra.

Melhor lugar do Brasil: Minha casa.

Fale com ela:
[email protected]


Atualizado em 7 Ago 2012.

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