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Restaurantes
Por Redação Guia da Semana

Colheres de condão

Quando nos lembramos de nossas avós, sempre tem a passagem de que ela estava na cozinha preparando aquele prato delicioso.



O motorista buzina, baixa o vidro do automóvel, e berra animalesco: "Lugar de mulher é na cozinha.". Lembro da minha avó, toda poderosa, no altar de sua cozinha. Não parecia ofendida. Era um lugar sagrado e profano, como o aposento de uma rainha, onde não era permitido tocar em nada sem a sua supervisão.

Estes aposentos não são o mesmo um lugar onde qualquer um possa ir entrando, mexendo, dizendo ou fazendo o que quiser. Na época dos reis e rainhas, o casal real não compartilhava o quarto. Cada um tinha seu aposento, onde era soberano. A cama do rei era ponto oficial do sexo burocrático, para onde a rainha era chamada a sua função política. A cama da rainha, esta sim, era o templo do sexo consentido, da paixão, da luxúria, do amor e do prazer.

Lembro do meu avô na copa, à cabeceira na mesa, ocupado com os problemas do poder do mundo afora, a ver as notícias e fazer contas. Lá, largava suas coisas e ficava bravíssimo quando alguém mexia. Enquanto isso, vovó bailava em seu palco, graciosa e em sincronia com tudo. Não me lembro dela indo chamar alguém no quarto para ir comer - isso JAMAIS aconteceu.

Enfeitiçados pelo aroma, esperávamos à mesa, hipnotizados pelo seu poder. O menu era quase sempre surpresa: vovó só contava quando achasse oportuno criar uma ansiedade. "Que vai ter para comer?". "Línguas-de-perguntador-e-cabeças-de-senhor-doutor", respondia rindo, como que proferindo um feitiço. Nunca soube ao certo o que isso significa - mas deve ser algo no português de Portugal ou nos manuais de magia.

Bruxa, em sânscrito, significa "mulher sábia". Não se sabe onde e quando a bruxaria surgiu, mas a civilização celta, que povoou a Bretanha e a Europa Ocidental, é expoente máxima dessa arte. As mulheres celtas eram as proprietárias das plantações e casas (daí o termo dona de casa), detentoras dos conhecimentos místicos e responsáveis pelo contato com a espiritualidade. Eram livres, endeusadas, podiam sustentar-se sozinhas, escolhiam seus parceiros e os clãs organizavam-se em torno delas. Na Idade Média, dispersaram-se pelo norte até o leste europeu. Acredita-se que a cultura matriarca, típica das famílias latinas de interior e dos ciganos, seja a reminiscência mais marcante dessa cultura, destruída pela Inquisição.

Curiosamente, a imagem mais marcante da feitiçaria é a de uma mulher mexendo seu caldeirão. Não penso em uma legítima nona de outra forma. E tenho certeza de que molho de tomate caseiro é uma poção capaz de aliviar dores de toda ordem.

Num ato subversivo, Monteiro Lobato pegou o mundo celta do inconsciente coletivo e colocou brilhantes toques de mineirice para o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Um reino livre e autossuficiente, governado por uma sábia e doce mulher, a Dona Benta Encerrabodes de Oliveira. "O sítio é um paraíso muito especial... se tem proprietária, não tem um dono, nem se verifica o exercício do poder autoritário" (ZILBERMAN, 2005, p.29).

A velha Benta, ao fogão, de avental e óculos, representa paradoxalmente uma mulher extremamente forte e moderna. Atenta à ciência, a ensina para as crianças e a aproveita em seu sítio. Na narrativa lobatiana, a concepção econômica, que norteia seu modo de administração, é a mais liberal, democrática e moderna possível. Segundo Zilberman, Dona Benta representa o dirigente ideal e dá conta da utopia do escritor. Nossa Emília interna sempre amará Dona Benta e sabe que ela existe, personificada nas mais improváveis mulheres.

Recentemente, descobri que amamos a Palmirinha. Expulsa de seu sítio por uma força patriarcal, Palmirinha é a Dona Benta que sofreu um terrível golpe militar. Achei emblemático vê-la partilhando a apresentação do CQC. Paradoxalmente - em um programa que dá voz à utopia por um mundo melhor governado e habitado, democrático, moderno e subversivo - lá estava a velha Dona Benta, levando uma cesta com camafeus de nozes e empadinhas de camarão. Para que servem? Para amaciar as trancas da mente e dulcificar a alma, facilitando o trânsito e a seleção de ideias, sentimentos, intuições.

Diante do primeiro livro de Nigella Lawson a tornar-se best-seller, How to be a Domestic Goddess (tradução livre: Como ser uma Deusa do Lar), mentoras do feminismo exacerbado dos primeiros tempos se contorceriam no túmulo. Mas motoristas machões, com suas imagens de Nossa Senhora no carro, ajoelham-se, pedem a benção de suas matriarcas e continuam buscando uma luz no fogão sempre aceso das deusas de suas vidas.

Leia as colunas anteriores de Rosa Fonseca:

Para comer com os olhos

Vinda a mim os que têm fome

Jeito de boneca

Quem é a colunista: Com formações em Publicidade e Gastronomia, Rosa Fonseca é chef de cozinha, professora e colunista.

O que faz: Trabalhou em restaurantes como o Félix Bistrot e o Beth Cozinha de Estar. Hoje, atua como personal chef.

Pecado gastronômico: Chocolate e queijo da serra.

Melhor lugar do Brasil: Minha casa.

Fale com ela: [email protected]

Atualizado em 7 Ago 2012.

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