Guia da Semana

França com madeira de lei

Ou O que a Amy perdeu e a Tia Lu não deixou passar.

Foto: Bruno Cesar Dias

O risoto de moqueca, um dos pratos do Térèze

Minha terra, o Rio, sempre me recebe com surpresas. Das piores, como a de ser assaltado nos primeiros cinco minutos em solo carioca, e das melhores: velhas cumplicidades entre amigos da escola que se reencontram e o sempre aberto abraço do irmão. Reservou também uma gratíssima surpresa na escolha do restaurante que inaugura essa série, a Gastro - pop - critics, um exercício de crítica de cultura que vai abarcar de restaurantes a baladas, sejam eles legítimos pés-sujos a suas imitações asseadas (mas nem por isso menos interessantes), casas de finos repastos a bandejões. Quem sabe, até, ampliar o leque para exposições, shows e outras coisas interessantes por esse Brasil? Vai descobrir quem acompanhar a coluna no twitter (@brunocsdias) e aqui, no Guia da Semana.


De volta ao Rio, mais precisamente a Santa Teresa. O bairro boêmio e intelectual desde março de 2010 oferece mais uma joia a sua coroa. É o Hotel Santa Teresa, e, junto a ele, o restaurante Térèze. Cheguei lá às 21h30 acompanhado de uma amiga. Estávamos a convite. A forma de acesso ao estabelecimento é uma informação importante, e sempre estará às claras nessas pseudo-críticas, pois ser convidado não obriga ninguém a tecer elogios.


Cumprimentos trocados e regras acertadas, vamos ao que interessa. Assim que chegamos, fomos apresentados a Damien Montecer, chef da casa, e nos foi oferecido o cardápio com uma pergunta num sotaque carregado: "O que vocês vão querer?"

Estávamos à disposição de todo o tipo de sabor e ingrediente, resposta que alargou o sorriso de Montecer e o fez prontamente avisar à cozinha para iniciar o menu degustação. A cada nova remessa, o chef vinha à mesa saber se estava de agrado e aproveitava para para falar um pouco de sua história e da proposta do restaurante.

Nascido na região da Provence, o francês chegou ao Rio aos 23 anos, em 2000. A estadia, que seria de três meses, se estendeu para quase um ano. Decidido a morar na cidade, voltou à Nova Iorque para fechar as contas no Maze, restaurante do chef Gordon Ramsay, e para cá voltou - dessa vez, para ficar. Entre consultorias prestadas a outras casas francesas e contatos realizados, Montecer foi convidado a um novo desafio: imprimir sua assinatura em uma cozinha que precisaria encantar gregos e troianos, ou no caso, franceses e brasileiros -, com um desenho de cardápio simples e funcional: entradas e sobremesas a R$ 25 (cada um) e pratos principais a R$ 50. Uma bela carta de bebidas e só.


Ao todo, foram degustados cinco pratos: duas entradas, dois principais e um festival de sobremesas. O repertório é afinado pela boa seleção de ingredientes e pelo esmero do chef e de sua equipe, que demonstram bom uso da técnica culinária francesa sem perder o acento particular, buscando sempre um toque de Brasil nas criações servidas.


A começar pelo perunano ceviche, feito com pargo e coberto com cebola roxa, finas fatias de manga e decorado com agrião. Em seguida, a bossa franco-brasileira entra com tudo na fatia de terrine de foie gras com chutney de caju, servido sobre cama de brioche com queijo coalho e castanhas moídas para decorar. O encontro de sabores das iguarias, o jogo do untoso com a calda de açúcar, mais a maciez do pão e a crocante castanha são de deixar qualquer crítico procurando palavras.

Entre as boas histórias, Damien Montecer acha graça do gosto brasileiro pelo risoto, prato visto como popular nas cozinhas por onde passou. Nas suas mãos, a invenção italiana foi passear no Espírito Santo e voltou na forma de risoto de moqueca. Senti falta de uma pimenta biquinho (ou qualquer outra das brandas) para decorar e colocar mais Brasil no prato.


Já a cozinha oriental, outra referência de Montecer, ele exercita no cordeiro com missô selado na wok. Junto com o naco do melhor corte do animal (o lombo) ricamente temperado, ainda vem guioza recheado com shitake e o desfiado da carne. De tilintar os hashis.


O douce carnaval fechou esse jantar com ares de orgia, que foi acompanha com dois vinhos à altura dos repastos. Em um grande prato, oito tipos de sobremesas, do lolipop de macarron de chocolate e o tradicional creme brullé aos sorbets de limão e manga para refrescar tanto sabor. Um belo espresso apreciado no lounge (batizado de "Bar dos Descasados" em homenagem aos antigos frequentadores) de frente para a vista da Torre da Central do Brasil, iluminando o centro do Rio, encerrou mais essa surpresa que só a Cidade Maravilhosa pode proporcionar.


PS: Por essas coisas do destino, o hotel, que já por si só era badalado, tinha acabado de receber a cantora Amy Winehouse dias antes da minha visita. A inglesa, que fez caras e bocas nas fotos feitas na sacada da suíte loft (um andar inteiro), poderia ter deixado as expressões faciais mais felizes se tivesse descido para jantar as criações de Montecer ao invés de se encher de pizzas e hambúrgueres - fato muito bem observado pela crítica da jornalista Luciana Fróes no jornal O Globo. E, na mais sincera opinião, perder é um verbo pequeno para expressar a oportunidade que a Amy desperdiçou.



Leia as colunas anteriores de Bruno Cesar Dias:

Sabores cariocas

Império dos sentidos

Gastronomia e tietagem

Quem é o colunista: Bruno Cesar Dias, um carioca andarilho pela terra paulistana.

O que faz: Repórter de cultura do Guia da Semana.

Pecado gastronômico: Pão! Seja na bruschetta, na rabanada ou no sanduíche de queijo com goiabada.

Melhor lugar do Brasil: Essa opinião depende do dia... mas com certeza, está na Via Dutra.

Fale com ele: brunocsdias@gmail.com ou @brunocsdias


Atualizado em 7 Ago 2012.

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