Guia da Semana

Manjar dos Deuses

Com a facilidade de comprar comida hoje, nos esquecemos da sua origem: a natureza.

Foto: Getty Images


Na porta do simpático restaurante do hotel-fazenda, com forno à lenha, alimentos orgânicos e cheiro de comida mineira, a placa anunciava: "Nesta cozinha só entra o que vem da horta, ingredientes frescos com a energia pulsante da natureza. Todo o alimento provém de Deus, por isso nada aqui se desperdiça".

Meus pais viveram na Europa da Segunda Guerra. Cresci sob o mantra "comida não se desperdiça". Achei linda, quase poética, a tal placa. Comi soberbamente nos dias em que lá estive e até ganhei alguns quilinhos. Mas, apesar da cozinha criativa e bem executada, reparei que alguns pratos voltavam intactos. Começo a reparar nas conversas das mesas: "Dá pra trocar o leite da vaca pelo de caixinha ou em pó desnatado light? Como assim, NADA se desperdiça, os pratos são requentados? O chef resolveu por a avareza na conta de Deus?".

Nossa relação com comida anda distorcida. Eu mesma, chef, com formação cristã e tudo mais, nunca pensara tão diretamente em algo tão lógico: todo alimento vem de Deus - dos deuses, do Universo ou mesmo da Mãe-natureza, se você fizer o tipo mais cético. É difícil lembrar isso entre as gôndolas dos supermercados, rodeados de bolachas sabor artificial alguma-coisa, tempero pronto, macarrão instantâneo e suco em pó. A distância da terra nos faz esquecer. Comida torna-se mercadoria. Com as necessidades básicas atendidas, não comemos por fome ou para nos ligar às forças da natureza ou às forças divinas que se manifestam por ela, mas por gula, compensação emocional, status, conveniência, rotina.

Penso nas sociedades primitivas e sua relação com a comida, nas festividades pagãs para as deusas da fertilidade, nas festas das colheitas, nas noites em claro protegendo o pomar da chuva, na vizinhança em mutirão pisando a uva para fazer vinho, nas oferendas para os deuses, no primeiro gole "para o santo", na prece antes das refeições, no repetido "o pão nosso de cada dia nos dai hoje". Podemos nos identificar mais ou menos com esses rituais, mas é preciso admitir que têm o mérito de memorar que a placa gritou à lembrança.

Comida pode ser tão cheia de significado...  Em um pensamento antropofágico, é correto afirmar que, quando comemos, incorporamos a força, sabedoria e perfeição da natureza. Comer talvez seja a nossa oportunidade de mais íntimo contato com o mistério da vida, o sobre-humano, o místico, o profano, o sagrado.

Lembremos os alimentos considerados santos e proibidos, as bruxas e suas poções mágicas. Não precisa ir longe. Nas metrópoles brasileiras, mantém-se até hoje a tradição de comer peixe na Sexta-Feira Santa - mesmo em lares não-católicos ou não-praticantes, a carne é rejeitada. É o melhor dia para fazer um churrasco: a picanha estará em oferta e a churrasqueira do condomínio estará disponível (você só corre o risco de não ir muita gente). Nos mercados Brasil afora, multiplicam-se ervas e elixires naturais que prometem toda a sorte de bênçãos: de prosperidade financeira a potência sexual e cura do câncer. São crendices esdrúxulas, embora pessoalmente ache mais esquisito chamar de jejum um banquete festivo com bacalhoada, bom vinho e sobremesa.

No aclamado filme Como Água para Chocolate, uma mulher descobre que os pratos que prepara têm o poder de despertar diferentes emoções em quem come. É uma linda história de amor, vale ver e refletir sobre esse poder do qual abrimos mão.

Reclamamos tanto da falta de sentido da vida contemporânea, mas, mesmo correndo o risco de parecer demasiado incrédula, arrisco dizer que esse tal super, grande, mega, Sentido da vida (com S maiúsculo), talvez simplesmente não exista e a vida ganhe sentido nos pequenos significados mágicos que damos às coisas mais rotineiras: ao ato de acordar, o Sol sobre a pele, uma maravilhosa refeição, o convívio com os queridos, o cultivo do singelo.

Leia as colunas anteriores de Rosa Fonseca:

Papo de bar

Café seleto?

O doce sabor do mar

Quem é a colunista: Com formações em Publicidade e Gastronomia, Rosa Fonseca é chef de cozinha, professora e colunista.

O que faz: Trabalhou em restaurantes como o Félix Bistrot e o Beth Cozinha de Estar. Hoje, atua como personal chef.

Pecado gastronômico: Chocolate e queijo da serra.

Melhor lugar do Brasil: Minha casa.

Fale com ela: rf_contato@yahoo.com.br 



Atualizado em 7 Ago 2012.

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