Guia da Semana
Shows
Por Redação Guia da Semana

Do Rappa ao Afro-funk

Marcelo Yuka fala com exclusividade para o Guia da Semana sobre os ensaios da sua nova banda e a preparação para lançar o álbum com influência no ritmo do funk carioca.

Fotos: divulgação/Paulo Golveia

´´Embora a minha mobilidade seja menor, meu trabalho é até mais efetivo´´, aponta Yuka

Considerado um dos maiores compositores da década de 90, a imagem de Marcelo Yuka ultrapassa as letras engajadas e transparece na sua atuação política. Baterista da banda O Rappa, levou o grupo ao topo das paradas com sucessos criados por ele, como Minha Alma, O que sobrou do céu e Tribunal de Rua. No auge da carreira, até então, um assalto que o deixou paraplégico mudou completamente sua vida em 2000.

As divergências ideológicas fizeram-no abandonar o grupo do qual foi fundador para criar o coletivo F.U.R.T.O, que seguia o estilo musical e a ideologia do Rappa, mas que também fazia parte de um projeto social. Entre debates sobre a violência e palestras pelo Brasil com temáticas de sustentabilidade, Yuka viu amadurecer a ideia de usar na música outra forma de atuação. Para isso, reuniu os amigos, tomou como influência o ritmo do funk carioca e chamou Amora Pêra para dar voz as suas letras. Com estreia na Virada Cultural paulistana, iniciou os primeiros passos para cair na estrada com seu primeiro álbum-solo, que de solo não tem nada.

Com lançamento programado para julho e ainda sem um título para nomeá-lo, Marcelo Yuka conversa com o Guia da Semana gente sobre o seu mais novo trabalho, a relação com o Rappa, com o mercado musical e o que mudou uma década depois do acidente que o deixou na cadeira de rodas.

Guia da Semana: Poderíamos dizer que este é o seu primeiro trabalho-solo?
Marcelo Yuka:
Na realidade, não. Para um artista que tem as minhas limitações, fica até esquisito chamar isso de um trabalho solo. Fora isso, eu nunca quis ter autoridade suprema para um trabalho, até porque eu preciso conversar não só com outros músicos, mas com outros artistas e outras expressões artísticas, não quero meu trabalho fechado em mim.

Guia da Semana: O que pretende passar com esse trabalho?
Yuka:
O disco vem de uma procura musical minha, de uma mudança de vida que tive e fui enxergando outras armas para lutar. Esse disco eu começo a colocar no meu trabalho o amor como possibilidade de mudança, como ferramenta política. Foi muito bom, porque está em uma parte da vida que entendi isso, pude contar com pessoas tão generosas. Pessoas que acreditam na mesma coisa que eu. Nesse trabalho, estou vivendo outras músicas não só gravadas pelo Rappa, mas também por Seu Jorge, Elza Soares e Marisa Monte.

Guia da Semana: Qual a diferença em relação a seus trabalhos anteriores?
Yuka:
É um disco com as influências que sempre carreguei - a coisa do dub - uma levada de samba, mas com pegada forte dos batidões do funk carioca, desse ritmo que ouso chamar de primeira música digital do Brasil e o folclore do futuro. Acho que o funk percorre o mesmo tipo de preconceito que o samba sofreu no seu começo e, por outro lado, já não é exclusivamente carioca, esta se espalhando pelo país todo e começa a receber outras influências da nossa expressão. Não existe o samba-canção? Talvez esteja fazendo o funk-canção ou, como a banda ousa chamar, de afro-funk, porque tem muita influência de música afro-brasileira.

Guia da Semana: E a banda já tem nome? 
Yuka:
Na verdade, vocês estão sendo um dos primeiros veículos em que estou divulgando a minha volta, então ainda está tudo muito novo. Não sou muito bom para nomes, sempre deixo isso pra depois. Mas, até julho, no lançamento, a gente vai pensar um que represente bem essa fase.

Guia da Semana: O grupo pretende sair em turnê?
Yuka:
Já estamos com alguns shows agendados. O primeiro é o Festival Black na Cena, em junho; e a outra é no Rock in Rio, em setembro. Além disso, algumas datas já estão marcadas para o interior. Quero rodar o país todo, tenho propostas de fazer show fora também. Quero voltar pra estrada.


O baixista Patrick Laplan vestido de mulher, na Virada Cultural

Guia da Semana: Nesse seu novo projeto as mulheres têm um destaque maior. Gostaria que explicasse um pouco como isso aconteceu.
Yuka:
Há muito tempo elas vêm me influenciando. Eu não tinha percebido, mas em várias canções que escrevi, elas aparecem como protagonistas. Tive músicas gravadas por Elza Soares, Marisa Monte, Maria Rita e várias outras cantoras que me receberam tão bem que acho ser esse o caminho. Não é um disco só de cantoras, até porque tem o Seu Jorge, o Alê Siqueira, mas é um disco que tem muitas mulheres. Sinto que muitas vezes a voz e o ponto de vista femininos foram capazes de dar nuances importantes para aquilo que compus. A mulher tem uma influência neste disco de uma maneira ampla.

Guia da Semana: Você poderia revelar algumas participações especiais desse trabalho?
Yuka:
Não posso falar tudo, para a gente poder ter o que falar depois (risos), mas posso adiantar a Cibelle, Céu, Seu Jorge, e mais gente que já eram importantes para mim e outras que passaram a ser. Muito mais do que procurar profissionais, eu queria estar com as pessoas.

Guia da Semana: Como você concebeu a formação dessa banda?
Yuka:
No baixo, Patrick Natal, um dos formadores dos Los Hermanos e, sem dúvidas nenhuma, o maior baixista do país. Na música que faço, o baixo é o herói do show, a coluna dorsal, não é uma coisa que destoe, mas tem timbre. Na voz, Amora Pêra, neta do Gonzagão, filha do Gonzaguinha, sobrinha da Marília Pêra, quer dizer, é uma força que só de DNA é impressionante. Ela me chamou a atenção em um sarau de poesia e é uma das raras cantoras jovens que não apela para a questão da sensualidade, que impõe uma força que vai além do fato de ser mulher. No teclado e guitarra, meu amigo meu parceiro Jomar Schrank. Na bateria, um garoto novo, Daniel Conceição, que trabalhou no Rappa um tempão e que sempre teve importância na minha formação musical.

Guia da Semana: Qual foi a sensação que teve depois do primeiro show?
Yuka:
Tive um problema com a luz, que apagou, só pela quarta ou quinta música, voltou. Eu carrego vários teclados analógicos antigos, e pela diferença de fase, alguns apresentaram problemas. Mas, no geral, fiquei muito feliz porque pude apresentar músicas que já tinham um conhecimento do público muito próximo do nosso. O conceito é algo mais difícil de construir, e isso a gente já apresentava. Por isso, fiquei muito emocionado. É uma volta cinco anos depois e eu ainda não sei como agir direito. O que me impressionou foi o Patrick durante o evento. Quando estávamos conversando sobre o Show da Virada, ainda no começo dos ensaios, falei que tinha vontade de tocar vestido de mulher, para tratar a questão homofóbica em São Paulo. Ele aceitou na hora e no dia apareceu vestido de mulher e fez uma das performances mais masculinas que já vi, pela vontade, garra que teve. As mulheres que estavam assistindo o show falaram que ele passou todo o recado sem soar uma coisa homofóbica.

Guia da Semana: Podemos considerar a continuidade das letras politizadas e do seu engajamento que acompanharam seus trabalhos anteriores?
Yuka:
Sempre, mas agora eu tenho outras armas. Estou olhando não só o que está ao meu redor, mas o que está dentro de mim. Posso estar sendo breve, superficial, porque o que me importa vai ser mais a impressão do público do que o que eu quis dizer.


Amora Pera (vocal), Jomar Schrank (guitarra e teclado), Daniel Conceição (bateria), Patrick Laplan (baixo) e Marcelo Yuka

Guia da Semana: Passados mais de dez anos do acidente que te deixou na carreira de rodas, como você enxerga as mudanças que a sua vida teve?
Yuka:
Na minha carreira, sempre fui uma pessoa que só fazia o que queria de fato. Já teve um momento na minha vida que fiz música pop, mas, quando fiz, não estava pensando nisso, e sim porque realmente acreditava naquilo. Então, desde o início me preocupava um pouco esse assunto. Ficar nessa situação fez-me perceber o que quero e o que não quero no mercado. Tenho um espaço dentro disso e não quero que seja um espaço grande, quero que seja um espaço justo. Pra mim é confortável, porque ninguém me diz o que fazer. Agora musicalmente, estou mais flexível. Então acho que as coisas acabam se equilibrando.

Guia da Semana: Nesse meio tempo, você se tornou um artista respeitável, não só pela música, mas por apresentar pelo lugar em que passa a sua experiência de vida, em ações engajadas e politizadas. Você já se acostumou com isso?
Yuka
: Há um tempo atrás fui assaltado novamente, tentaram levar meu carro e me largaram no chão. E, naqueles dois minutos em que ninguém passou na rua, fiquei ali sem nada pra fazer, pensando que isso já não é uma coisa que quero fazer, é a minha sina. Então, passei a ter muito mais responsabilidade nisso. Acho que não é hora de fraquejar. Tentei fazer com que a mídia não me transformasse em vítima ou herói, mas a gente tem que saber ser esperto e aproveitar que, se a cadeira de rodas tem alguma coisa de trágico, temos que usar a situação. Não pela minha condição, mas pelas coisas em que acredito. Isso me leva a trabalhar com muitas coisas diferentes. Embora a minha mobilidade seja menor, meu trabalho é até mais efetivo.


´´Não sei encarar a música só como entretenimento e, se tentasse, não faria bem!´´, enfatiza Marcelo Yuka

Guia da Semana: Você começou no Rappa e teve um momento que saiu da banda. Como é a relação entre vocês hoje em dia?
Yuka:
Nunca mais vi, nunca mais... (pensativo). Nunca mais falei com eles. Foi um casamento que acabou em todos os sentidos. Assim como no fim de um relacionamento, não quero pensar nos motivos que levaram ao fim. Tive os meus porquês. Só sei que não existe nada, nenhum tipo de relação, nenhum tipo de contato e também que essa foi a melhor maneira de convívio com eles.

Guia da Semana: Você se considera um artista realizado?
Yuka:
Boa pergunta. Eu acho que tenho mais carinho e atenção do que batalhei para ter. Trabalhei muito, mas acho o mais importante está por vir, quero sempre me surpreender com o que posso fazer, não digo nem pros outros, mas pra mim. Acho que o artista na hora de sua criação tem que ser egoísta mesmo. Se ele for pensar no que esperam dele, vai acabar virando uma caricatura de si mesmo ou perdendo a sua força de expressão. Sinto-me gratificado com a profissão, mas preciso continuar trabalhando e fazendo da música uma coisa que me surpreenda.


Atualizado em 6 Set 2011.

Mais notícias

Sandy e Junior no Brasil em 2019

Shows

Sandy e Junior: 21 músicas que queremos ouvir na turnê "Nossa História"

Shows

Sandy e Junior confirmam turnê comemorativa de 30 anos; primeiro show é em Recife, dia 12 de julho

Shows

10 atrações brasileiras que você não vai querer perder no Lollapalooza 2019

Shows

7 atrações do Lollapalooza 2019 que vêm ao Brasil pela primeira vez

Shows

9 shows imperdíveis em São Paulo em março de 2019

Shows