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Por Redação Guia da Semana

Ilusionista das palavras

Inventivo cantor, Tom Zé faz 50 anos de carreira com o álbum Pirulito da Ciência. Confira a entrevista em que ele comenta sobre o seu mais novo trabalho, o tropicalismo e o sucesso no exterior.

Foto: Diego Dacax


Um dos artistas mais originais e singulares da música popular brasileira, Tom Zé não se encaixa em nenhum formato. Participou ativamente da tropicália ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas não se sentiu preso ao movimento. Enquanto seus amigos deslanchavam na carreira assumindo a cultura de massa, Zé apostou em trabalhos mais autorais e herméticos. Caiu no ostracismo e foi somente com a ajuda do músico norte-americano David Byrne (ex-Talking Heads), que voltou a ficar em evidência, primeiro no cenário internacional, para depois aportar no Brasil.

Para rememorar as cinco décadas de trabalho, o compositor, cantor e músico experimental de Irará, Bahia, gravou em São Paulo sua primeira retrospectiva,  Pirulito da Ciência. Lançado em DVD e CD, o projeto tem a direção do ex-baterista dos Titãs, Charles Gavin, e apresenta 24 composições fundamentais da carreira de Tom Zé, como Augusta, Angélica e Consolação, Menina Jesus, São São Paulo e O Céu Desabou

Em meio à agenda lotada do artista, com entrevistas e shows, o Guia da Semana bateu um papo com o performático cantor para falar de seu mais novo projeto, que usa um painel de imagens, palavras e acordes para elucidar a trajetória de um dos mais inventivos personagens da música nacional.

Guia da Semana: Como foi pensado esse novo trabalho, Pirulito da Ciência, em comemoração aos seus 50 anos?
Tom Zé:
Foi o Charles Gavin que me convenceu a fazer essa retrospectiva. Em princípio, eu queria fazer o DVD do disco Estudando a Bossa, mas ele me disse que uma retrospectiva era melhor e já tinha vendido a ideia para o Canal Brasil. Graças a Deus, ele me convenceu e acabamos fazendo uma coisa muito importante para minha vida. Teve uma repercussão nunca vista antes em outros trabalhos, com muitas entrevistas, vendagens e shows.

Guia da Semana: Olhando hoje para tudo o que você viveu, como faz esse balanço de sua carreira?
Tom Zé:
O álbum me deu uma ideia de que passei por territórios tão diferentes, que em alguns momentos parece até que experimentei cinco ou seis vidas. Trabalhos que até então não pensava que seria capaz de fazer, como o Estudando a Bossa e do Danç-Êh-Sá, que era aquela espécie de pós-canção. Então, me deu essa possibilidade de enxergar um pouco de longe o percurso todo.

Foto: divulgação


Guia da Semana: Está em cartaz o filme Uma Noite em 67, que apresenta ao público o dualismo no Festival da Record, entre a bossa nova e o surgimento do tropicalismo. Você, que participou ativamente desse último movimento, como vê a influência dele na época e para as gerações posteriores?
Tom Zé:
Em um tempo em que o país estava oprimido pela ditadura - onde a coisa mais importante era que a nação não pensasse - o tropicalismo foi uma agitação mental oferecida à juventude que mais se interessa em pensar. Os jovens estavam extremamente excitados e a nação estava andando, apesar da ditadura - mas graças à nossa música, já que a censura não conseguia achar o que censurar nela.

Guia da Semana: No documentário Fabricando Tom Zé, você comenta que, apesar de ter participado da tropicália, não se sentia tropicalista de fato. Como foi de fato a sua relação com o movimento?
Tom Zé:
O crítico Luis Tatit, que é muito amigo meu, um dia escreveu no livro Tropicalista Lenta Luta, que o percurso que fiz foi fantástico, mas era uma terceira margem, eu nunca tinha sido tropicalista. De um lado, tem muita gente que pensa assim, mas a maior parte das pessoas, principalmente no estrangeiro, me botam como se fosse tropicalista.
Para resumir essa situação, digo que tem certas coisas que não tem mais jeito, não tem como consertar. Quando entrei na escola primária, comecei a conviver com o mundo ocidental, que é Aristóteles, Descartes, Euclides, orientando a maneira de pensar, o espaço e o tempo. 
Conseguia acompanhar as dissertações desse mundo, mas as operações nunca davam um resultado redondo, sobravam sempre restos. E esses restos eram frutos do que a nossa educação e civilização não conseguiam assimilar. Isso foi criando uma espécie de lixo lógico lá no hipotálamo, em um canto do cérebro. Passado toda vida escolar e universitária, eu estava querendo interagir com meus coevos para fazer música e pensar o país, de repente esse lixo todo salta pro córtex e diz "Eu tô aqui, eu sou você, porra!". Aí, você começa a fazer uma coisa que todo mundo diz: "Isso não é música normal". Botam o nome tropicalismo e o que você pode fazer?! Não tem jeito, você já está dentro.

Guia da Semana: A presença de Irará, sua cidade natal, é bem forte em suas canções. Sua esposa até menciona isso no documentário Fabricando Tom Zé. Você poderia falar um pouco disso?
Tom Zé:
Ela está presente porque é o lugar onde primeiro tomei contato com o ato de pensar, o que acaba sendo muito forte. Depois, porque lá é um mundo onde a ética, a moral e a cultura se divulgam de maneiras diferentes. Por sermos todos analfabetos, a maior palavra que circulava lá era a palavra. E quem endossa isso é o escritor Euclides da Cunha, pois eu não tenho autoridade. O sertanejo é uma espécie de cientista, que está o tempo todo pensando nas coisas que estão à sua volta. Eu aprendi a língua de lá porque dizem que cada língua é uma cosmovisão. É por isso que falo tanto em Irará, porque eu ainda sou de lá, eu ainda vivo lá.

Foto: Diego Dacax


Guia da Semana: Você cita frequentemente o livro Os Sertões em diferentes ocasiões. O que esta obra representa para a sua formação como artista brasileiro?
Tom Zé:
É tudo. Eu acabei de te falar da coisa do lixo lógico. Essa formação é tão forte que eu nunca consegui ser absorvido pelo mundo aristotélico, nunca consegui fazer parte desse mundo. Eu sempre sou uma rês tresmalhada, quer dizer, um gado fora de seu lugar.

Guia da Semana: Em entrevista para o programa da TV Cultura Roda Viva, na época do lançamento de Estudando o Pagode, você disse que queria simplificar as suas composições, mas paradoxalmente elas parecem se tornar mais complexas. Como você enxerga isso?
Tom Zé:
Ontem me perguntaram o seguinte: como eu me sentia com a atração de ser prostituído fazendo música fácil? Olha, eu só vivo na prostituição, só vivo querendo fazer música fácil. Tenho até uma brincadeira em que digo que não quero que minha música toque no rádio, quero que toque na estação rodoviária, que é mais popular ainda! E quando faço uma nova canção, penso que agora eu vou parar na estação rodoviária. Mas depois, quando vou ver, não vai. O que posso fazer?
De todo modo, tenho um público grande que me acompanha, principalmente no exterior, e me conformo. Minha ideia principal é fazer música pensando que vou virar uma p... de virar bolsinha, mas nem bolsinha consigo rodar.

Guia da Semana: Aproveitando o gancho, sua música é muito valorizada no exterior - algumas vezes, até mais do que aqui. Como você avalia essa relação?
Tom Zé:
Quando você acha uma mãe que lhe oferece um colo, seja lá que mãe for, você aceita. No zoológico da China tem três ou quatro leõezinhos cuja mãe morreu e uma cachorra deitada os amamenta. Eles nem ligam se o peito é de leoa ou de cachorra, eles querem é leite. Assim sou eu. Quando tem algum lugar que lhe oferece aceitação, você vai lá mamar, não pode reclamar porque é a própria vida que está vindo para você.

Guia da Semana: Você sempre usou da performance para dar vida nos seus shows. Isso vem mais da necessidade de se fazer entender ou é uma maneira mais completa de se mostrar?
Tom Zé:
Eu nunca tive o páthos, aquela chamada consciência interior, dramática, emocional, que possibilita à pessoa passar uma hora e meia cantando na frente do público só com a voz, só invocando o contemplativo. Como não tenho capacidade para isso, desenvolvi um certo treino de jogar um anzol no cognitivo das plateias. E, para fazer isso, tenho de levar o corpo. Uma música, quando está pronta, ainda não é o espetáculo, não está completamente feita, só fica completa quando trabalho o que vou fazer no palco. Só assim ela fica no estado de poder sair sozinha no mundo, estar viva. Por isso, é tão importante o que vocês chamam performance, que no meu caso é uma necessidade vital de sobrepor ao que eu ponho de significado na canção em si, com mais uma camada de significado.


Atualizado em 6 Set 2011.

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