Guia da Semana

Por Marcus Oliveira

No início, eles chamaram atenção pelos black powers coloridos e pelo visual exótico. Com o passar do tempo, deixaram de lado as roupas escalafobéticas e lideraram as paradas com verdadeiros hinos, como "Fácil", "Encontrar Alguém" e "Dias Melhores". De lá para cá, vários hits fizeram parte dos sete registros lançados, e o Jota Quest, sem dúvida, encontrou o caminho do estrelato.

A banda mineira comemora esse ano o debute do primeiro álbum J. Quest (nome inicial do grupo). Para celebrarem a data, lançam o CD Quinze, primeira compilação de sucessos - escolhidos pelos fãs - com raridades e três faixas inéditas. Ainda como parte da festa, uma turnê, carinhosamente chamada Jota15, está confirmada em diversas capitais brasileiras.

O projeto leva aos palcos artistas que, de certa forma, fizeram parte da carreira dos músicos. Nomes como a cantora Pitty, os ex-Legião Urbana Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e mais surpresas estão previstas para as apresentações.

Ao lado dos companheiros, prestes a lançarem também um álbum em espanhol na Argentina, o vocalista Rogério Flausino bateu um papo com o Guia da Semana diretamente do estúdio pessoal do grupo, em Belo Horizonte. Confira!

Guia da Semana: De onde veio a ideia de montar um álbum duplo para comemorar?
Rogério Flausino: A coletânea foi escolhida pelos fãs pelo nosso site. Incluímos três músicas inéditas e três raridades. Começamos a discutir há um tempo o que faríamos, até que optamos pelo projeto. Estamos preparando um disco novo para o ano que vem, mas não quisemos deixar de incluir também coisas novas. O bacana é o fato de a galera ter escolhido e ver que tem o dedo deles lá. São todos singles originais remasterizados. Ficamos de janeiro a março mexendo no som. O primeiro álbum, por exemplo, era de 1996, foi gravado em fita, há muita diferença. Fechamos em 30 músicas e esperamos, se esse fizer sucesso, lançarmos um volume dois. Muita coisa ficou de fora.

Guia da Semana: Muitas bandas optam pelo registro ao vivo para comemorar uma data importante. Por que vocês foram na contramão disso?
Rogério Flausino: Gostamos da ideia de pegar os singles originais e passar uma régua para pontuar. A turnê Jota15 está sendo toda filmada. Uma coisa de bastidores mesmo, não propriamente o show. Estamos registrando mesmo o que será o 15º ano da banda e é muito provável que isso vire um DVD. É um registro dessa comemoração. Mas não será um CD Jota Quest ao vivo em determinado local.

Guia da Semana: E como foi a escolha das capitais pelas quais vão passar?
Rogério Flausino: Tínhamos um projeto de fazer uma turnê que englobasse o Brasil todo, uma espécie de Jota Fest, algo que fosse além do show, que envolvesse convidados especiais, DJ, banda de abertura. Estávamos pensando nisso há um tempo e, com a chegada dos 15 anos, levantamos essa ideia. Na maioria das vezes as bandas lançam um CD, montam um show novo, as músicas fazem sucesso, começam a procurá-las e para esse projeto o nosso pensamento não era esse. Saímos com vinte apresentações definidas, o que demandou organização. Mas conseguimos fechar vários lugares e vamos viajar o país todo, praticamente.

Guia da Semana: Em relação às participações, como foi a escolha e quais nomes pretendem subir aos palcos com vocês?
Rogério Flausino: Queremos chamar parceiros locais e amigos nossos para participarem do projeto. No primeiro show, no Rio de Janeiro, cantaram com a gente o Otto, a Pitty, o Seu Jorge e a galera da Legião Urbana. Para São Paulo, temos a confirmação dos caras da Legião e quem abre o show é o Copacabana Club. Mas, nesse caso, queremos chamar também DJs, artistas do lugar onde vamos tocar e fazer uma verdadeira festa.

Guia da Semana: O que mudou musicalmente nesses quinze anos?
Rogério Flausino: É notório que houve uma mudança grande. O início do Jota era dedicado à música black, soul, e, com o passar dos anos, abrimos mais e deixamos outras referências entrarem. Acho que isso é natural e necessário com o passar do tempo. Estamos sempre em busca de algo novo, que nos dê prazer e nos instigue a evoluir. Fazemos música pop e misturamos diversos sons. Temos um estúdio em Belo Horizonte e isso tem nos trazido uma elevação técnica muito grande. Ficamos por aqui, tomo um café, dou um beijo na minha filha e volto. Isso deixa o trabalho muito mais pessoal e faz uma diferença absurda.

Guia da Semana: Em relação às composições, as letras são feitas em conjunto ou cada um na sua?
Rogério Flausino: De todas as formas possíveis. Tem canções que são mais corporativas, outras de uma cara só, feitas em dupla. Às vezes rola de um fazer a base o outro a letra. Curtimos também umas regravações. Temos parcerias. Cada trabalho tem um amigo, para dar uma refrigerada. Gosto da parte das letras, tenho meu estilo de compor, minhas limitações, é um processo de eterna busca e evolução. É preciso se dedicar, ler, errar, tudo faz parte.

Guia da Semana: Entre as composições, alguma te marcou mais ao longo da carreira?
Rogério Flausino: As coisas do Jota que mais tocam e dão certo são as mais simples possíveis. Feitas com despretensão. Nos surpreendem justamente por isso. Não esperamos nada dela e, de repente, estoura. Um exemplo bem simples é a canção Dias Melhores, uma letra simples, feita na volta de um show. É uma brincadeira de palavras e ela representa muito, para muita gente. Foi usada em campanhas, ONGs. Isso me dá muito orgulho. Na Moral é, também, meio que um hino do brasileiro, que consegue viver na moral, mesmo diante de tantos problemas.

Guia da Semana: Vocês estão lançando um CD em espanhol e no Quinze há canções em outra língua. Vocês pretendem mirar a carreira internacional?
Rogério Flausino: Sempre achamos que é possível isso. Principalmente por conta dos Paralamas do Sucesso, que nos anos 80, 90, fizeram uma carreira legal lá fora. O som que eles fizeram no Brasil funcionou muito bem por lá. Acho que eles abriram as portas e grande parte do que eu aprendi nesse sentido foi com eles. Isso fez com que muita gente na América Latina gostasse de rock brasileiro.

Guia da Semana: Não tem receio de prejudicar a carreira de vocês por aqui?
Rogério Flausino: O processo é lento e está no início. O disco foi lançado somente na Argentina e por enquanto a divulgação é lá mesmo. De acordo com os acontecimentos vamos reavaliado, podendo abrir novas frentes, outros países. O trabalho de divulgação está começando. Como uma banda nova mesmo. Mas aqui é nossa terra e queremos flertar com isso tudo, na verdade. Mas nossa casa é aqui.

Guia da Semana: E o que pretendem conquistar para os próximos 15 anos?
Rogério Flausino: Continuar nessa mesma toada evolutiva. Artisticamente falando e da parte pessoal e musical. Temos muito que evoluir nas letras, em estúdio, nas canções, na forma de gravar, no showbizz, no jeito de conduzir e melhorar os shows, deixar ainda mais envolvente. Além de evoluirmos como seres humanos. A dúvida é: o que fazer com isso tudo que conquistamos? Como ser melhor como amigo, banda, família? Achar esse caminho e continuar na estrada.

Por Marcus Oliveira

Atualizado em 1 Dez 2011.