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Por Redação Guia da Semana

MPB não é selo de qualidade

Artistas misturam diversos ritmos, os intitulam de MPB e pensam que fazem sucesso.

Foto: divulgação

Um assunto recorrente no meio da música é a falta de parâmetros para tudo e todos. O mundo já não nota as diferenças entre nada, imagine se iria resguardar esta capacidade logo para música?! Quem toca muito bem e quem não toca nada; quem sabe cantar e quem não sabe nem o que está dizendo; quem compõe muito bem e quem escreve aleatoriamente; entre outras evidências. Na falta desses parâmetros se apóiam argumentos com base no "achismo" ou no livre arbítrio de gostar ou não. Observo e descrevo a seguir o quanto podemos ser iludidos.

Quando leio entrevistas de outros artistas, (especialmente daqueles que se dizem ou se auto-colocam no grupo estético da MPB), faço a relação direta do discurso com a obra ou o show, e assim aguço minha curiosidade reiterando ou não a minha admiração por quanto um artista, um cantor ou cantora sabe sobre o que está fazendo e o quanto a obra "delata" a coerência, a verdade deste discurso. É lógico que o encantamento pelo timbre da voz, melodia, vigor, letra, beleza, entre outros aspectos, se fecha dentro desta paisagem. Se já escrevi sobre a oportunidade, hoje falo sobre o oportunismo.

É sempre moda ser moderno, e na MPB a moda é sempre olhar pra trás. Isso é fácil: gravar composições consagradas, convidar músicos experientes, cantar meio baixinho, não ter muitos instrumentos por faixa, entre outras fórmulas, já coloca o disco naquela prateleira.

Junta-se tudo isso a aquele discurso "meio psicológico", de _"Hoje a tendência é isso e eu estou indo pelo lado contrário..., criando minha própria forma...", e aí está: temos um novo artista de MPB. Um artista que parece infelizmente convencer senão a maioria, uma boa parte do público de que sabe, de que pode. Será tão simples assim?

Leio inúmeras barbaridades sob forma de críticas musicais, sempre proferidas pelos "artistas" como a máxima da equação intelectual, criando a ilusão de serem baseadas em conhecimento e sensibilidade. Essas verdadeiras atrocidades, possibilitadas somente pela frágil impressão de que cada artista pode construir sua identidade da forma que queira, fazem com que me pergunte: desejo ou oportunismo?

MPB não é selo de qualidade e quem a faz nem sempre está apto a representá-la, compreendendo profundamente suas matrizes, interferências, e sob qual medida posicionar uma e outra. Somos todos de uma geração pós-tropicalistas; herdamos a liberdade saudável de misturarmos tudo, mas a grande maioria não sabe o que faz. Já eles, os tropicalistas, sabiam e sabem. Misturar aleatoriamente pode fazer parte da experimentação, mas nem sempre pode ser apresentado como o resultado.

Nessa análise não incluo apenas os artistas da voz. Aqui estão também alguns criadores que se julgam bons compositores de MPB. Estes, inclusive, podem ser encontrados no meio do repertório de CDs da tal prateleira. São frases sem nexo, (lá vai de novo a palavra), misturando a leveza das composições da bossa nova, barquinhos, céu, com conflitos pessoais ou de amor, numa colagem nada original e sem valor algum. E o que é pior, sentem-se desprestigiados por não serem gravados. (Que fique aqui o registro de que sou uma cantora, que tenho dado especial atenção no meu repertório aos novos compositores e às canções inéditas, e que não estou falando aqui da real falta de oportunidade para quem é realmente talentoso, mas sim da ilusão dos que não são).

Como a ilusão é muito próxima da enganação, na música estamos muito mais predispostos a sermos enganados, e como faltam parâmetros para tal distinção, vai se tornando mais difícil a cada dia notar as diferenças.

Não há patente em música, não se "paga" a João Gilberto (foto) para usar para si a sua forma genial e dificílima de cantar, dividir e tocar. O que se faz em arte, principalmente em termos de criação, é quase uma doação para o patrimônio da humanidade. Doação que é para ser absorvida e consumida mesmo, mas há muita diferença entre o "vestido para se disfarçar" e o discípulo que faz a reverência. Fico pensando quem está sendo mais iludido? Os que dizem que fazem ou os que pensam que estão escutando?

Leia as colunas anteriores de Vânia Abreu:

  • Debate: gravadoras não sabem como lançar um artista com estilo próprio, mas querem algo novo.

  • Poder da mídia: artistas pré-fabricados surgem e recebem cada vez mais o apoio de poderosos.

  • Música em pauta: os segredos de uma arte que deve ser ouvida, escutada, sentida...


    Quem é a colunista: Vânia Abreu

    O que faz: é cantora.

    Pecado gastronômico: comida japonesa.

    Melhor lugar do Brasil: a própria casa.

    Fale com ela: [email protected]




  • Atualizado em 6 Set 2011.

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