Guia da Semana
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Por Marjorie Ribeiro

No timbre da diva

Em entrevista, Elza Soares conta por que se considera roqueira do samba e dá detalhes do próximo disco de jazz.

Com mais de 50 anos de carreira, ela ainda é uma das vozes mais marcantes do Brasil (Nayara Lucide)

Ela é do samba, ela é da bossa, ela é do jazz, ela é do rock, ela é do blues, ela é do funk, ela é do hip hop, ela é tudo isso junto e misturado. "Ela é a expressão raríssima da voz feminina num país de cantoras", define Maria Bethânia no documentário Elza, que exalta a carreira musical da artista.

Lá fora, ela é conhecida como a diva do samba. "A bossa-nova pôde pegar um avião e sair pelo mundo, o samba, não. E o samba tem tudo para ser rock que nem eu", ressalta a compositora e cantora.

Eleita nada menos que a cantora do milênio pela BBC de Londres, Elza Soares dispensa apresentações. Pelo contrário, ela pega o microfone e fala por si só. Ou canta com seu timbre marcante a emoção que sai pelos poros - do cóccix até o pescoço. Com 73 anos, 50 só de carreira, ela entoa até hoje uma voz impressionantemente forte e abusada.

Em um bate-papo leve e descontraído, a simpática Elza Soares revela ao Guia da Semana suas influências musicais, artista preferido da nova geração, próximos projetos e mostra por que é uma das expressões mais singulares da música brasileira. Confira!

Guia da Semana: Você é chamada por muitos de roqueira do samba, por ter surgido no samba  para mexer e transformar, misturando com outros ritmos. Você concorda com isso?
Elza Soares: Eu sou totalmente roqueira, eu gosto de samba, mas eu sou do rock. Não gostava quando diziam na rua sobre o nosso "sambinha", que coisa mais desrespeitosa! Você chama o rock de roquinho ou o jazz de jazzinho? Não. Eu nasci no samba, mas não quis coroa de sambista. Eu quero cantar tudo, não gosto de rótulo. O Chico não constrói? Eu venho e vou desconstruindo.

Guia da Semana: Além do samba, quais foram suas outras influências musicais?
Elza Soares: Muito jazz. Se você prestar atenção no Nelson Cavaquinho cantando, ele é um negrão do jazz. A voz do Jamelão, o que é? Aquelas vozes que só os negrões de lá têm e que são totalmente favorecidos e aqui não são, eu não entendo.

Foto: Divulgação 

 
Elza cita a Maria Gadú como uma das cantoras de destaque da nova geração

Guia da Semana: Que nomes você citaria do jazz e do samba que te influenciaram?
Elza Soares: Eu sou apaixonada pelo Chet Baker! Nina Simone, Billie Holiday, Daiana Washington, ela tem uma voz que me deixa alucinada, gosto da afinação.

Guia da Semana: E da leva de artistas da nova geração, o que você escuta hoje em dia?
Elza Soares: Tem muita gente gostosa e maravilhosa. Eu gosto muito da Maria Gadú, ela veio com uma proposta boa. Ela me lembra um pouco a nossa Cássia Eller que foi embora. Tenho vontade de convidá-la para o meu longa.

Guia da Semana: E como será esse outro filme que está sendo produzido sobre você? Tem previsão de estreia?
Elza Soares: Esse será a vida de Elza mesmo, do dia em que eu nasci até agora. É um longa do Bruno [Lucide], meu marido, e a Elizabete Martins. Ele já está sendo rodado, mas está dependendo dos patrocinadores para sair.

Guia da Semana: No filme Elza, você conta como o encontro com o Louis Armstrong marcou sua vida. Que outros momentos foram simbólicos para a sua carreira?
Elza Soares: Foram muitos, como a Thalma de Oliveira e a Ângela Maria, cantoras que respeitamos, que são os nossos brasileiros. E tem encontros como o da Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Oscar Peterson, pessoas que eu tive a felicidade de conhecer. Acho que os mais marcantes foram o da Ângela Maria, que eu tive substituí-la em uma apresentação, e o Louis Armstrong, que é o dono daquela voz toda.

Guia da Semana: Qual é o segredo para você conservar a sua voz, depois de tanto tempo fazendo esse malabarismo vocal?
Elza Soares: É malabarismo mesmo (risos), só driblando! Não faço nada, nada, nada, deixo ela quietinha. Não se mexe no que está dando certo, né? Já chegaram a estudar minha voz, me deram seis meses para ela acabar. E eu pensei, cacilda, agora que eu estou comendo filé mignon! (risos) Mas minha voz está igual até hoje, não mudou nada, canto todas as músicas como antes.

Guia da Semana: Você coloca emoção na voz como poucas cantoras. No filme Elza, quando canta Dor de Cotovelo ao lado de Caetano, chega a chorar. O que essa canção te faz lembrar?
Elza Soares: Ai, aquela música quando eu canto... não tem como. Eu sou totalmente louca mesmo, né (risos). Ela me lembra o passado, saudades é uma coisa fantástica né. Eu posso ter tristeza, mas saudades, jamé! São coisas que ficaram para trás, mas são lembradas. Aí, dói.

Foto: Divulgação

Seu próximo cd promete um repertório afinado no talento de jazzistas como Chet Baker

Guia da Semana: Você está trabalhando agora em cima de um cd de jazz. Gostaria que você falasse um pouco sobre isso.
Elza Soares: Esse trabalho é um sonho, eu sempre quis cantar jazz. A produção é do Bruno, meu marido, e nós estamos aí no jazz, que vai ser um arrepio, um escândalo, e vai ter muita coisa boa. Vou buscar lá no fim do Judas aquelas músicas que ninguém canta mais. Olha, eu fui buscar uma cantora que ninguém vai saber, Dakota Staton. E sabe aquela negra do filme Cor Púrpura? Ela também, eu fui estudar ela todinha.

Guia da Semana: O cd inteiro será gravado em inglês?
Elza Soares: Ele será todinho em inglês, vou colocar a rolha embaixo da língua para falar inglês (risos).

Guia da Semana: Lembrei agora quando você contou que conheceu Louis Armstrong e você não entendia nada o que ele dizia, e agora você aí gravando um cd em inglês...
Elza Soares: Foi mesmo (risos), eu sei lá o que ele estava me dizendo, ele falava que era meu father, eu pensava "fóder", achava que ele queria outra coisa comigo, aquele negão todo, ai meu Deus! (risos)

Guia da Semana: O cd de jazz tem alguma previsão para sair?
Elza Soares: Não tem previsão, ainda estou estudando os cantores. Já tenho uma pasta gravada do Chet Baker, que é foda. Eu sou apaixonada por esse cara! Quando comecei a namorar com o Bruno, ele disse para mim: estuda esse cara. Aí eu falei: ah é, meu bem, é comigo mesmo, e eu estou estudando muito o Chet Baker, ele é muito bom.

Guia da Semana: Depois de anos de trabalho, você está com 73 anos né...
Elza Soares: Cara, eu não sei não, eu acho que eu tenho 24, viu? (risos) Olha só, corpo perfeito, não tenho uma celulite, uma variz.

Guia da Semana: E qual é o segredo de tudo isso?
Elza Soares: Eu não sei, te juro, é um mistério. Eu malho e corro muito, não sou muito comilona, evito carne vermelha, às vezes como porque é necessário, mas eu sou mais de legumes e frutas.

Guia da Semana: E a saúde no geral, como está?
Elza Soares: Eu tive uma leve torção no tornozelo esses dias, que tem me impedido de andar. Mas de resto, está tudo em cima, pronta para amar!

Guia da Semana: Com mais de 50 anos de carreira, filme lançado e agora um cd de jazz em produção, o que falta?
Elza Soares: Falta muito, falta tudo! Enquanto eu estiver viva, está faltando tudo! A gente sempre sente falta de algo na vida, não é isso? Se tiver que fazer ainda uma plasticazinha, a gente vai fazer (risos), o que tiver que colocar no lugar, a gente coloca, e estamos aí.


Por Marjorie Ribeiro

Atualizado em 2 Dez 2011.

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