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Por Redação Guia da Semana

Um sonho chamado Jobim

E só foi possível acontecer graças à imaginação.

Foto: Getty Images

O show a que nunca fui aconteceu em alguma esquina da minha memória, naquela região das coisas que não existiram. A mente faz força para dar vida ao fato. E a gente acaba se lembrando da plateia ansiosa, do som das latinhas de refrigerantes, do garçom com a lanterna discreta trazendo uma porção de pastel.

Mas não havia tempo para uma segunda mordida. Das cortinas laterais do teatro imaginário, surge um senhor de terno branco e chapéu de palha. Pai das teclas pretas e brancas. Com vocês, Antônio Carlos Jobim!

Num gesto eterno, ele assume o piano. O primeiro acorde soa forte, deixando até quem não pediu aperitivo de boca aberta. "Eu sei que vou te amar, por toda minha vida eu vou te amar". A moça da mesa ao lado chora. Um garçom oferece lenço, mas ela se irrita num balé de mãos tentando abrir caminho para os olhos. As lágrimas param de cair. Chega de saudade.

A plateia aplaude de pé. Algumas palmas perdidas coincidem com a introdução da próxima música. Tom segue declamando ao piano. Tristeza tem fim. Ela acaba ali, na harmonia tão carioca do maestro brasileiro.

Agora me pego, imaginando o mar, o Corcovado e a curva do avião em busca da pista. Por um instante, uma certeza: o Rio de Janeiro estava ali, dentro do meu teatro.

O maestro continua acariciando seu piano. Faz chover na roseira, faz imortal uma garota na praia, faz os desafinados da platéia cantarem com o coração. Até que o show termina nos gritos insistentes de "bis". Jobim atende aos pedidos. Imortaliza novamente a famosa garota. E desaparece atrás das cortinas do palco da minha memória. As luzes se acendem, agora posso ver o rosto dos garçons. A moça que estava ao meu lado é um pouco mais gorda do que imaginei. No escuro, tudo melhora.

É o fim do meu encontro com o mestre das melodias cheias de Mata Atlântica. O fim de um salto preciso do plano da realidade ao plano dos sonhos. Fim do show a que nunca fui. Como a nossa imaginação é teimosa!

Quem é o colunista: Pedro Cavalcanti.

O que faz: Publicitário.

Pecado gastronômico: Qualquer prato preparado pela minha avó.

Melhor lugar do Mundo: Aqui e agora, como diria o Gil.

O que está ouvindo no carro, iPod, mp3: Ulisses Rocha, Pat Metheny, Chico Saraiva
 
Fale com ele: [email protected]

Atualizado em 6 Set 2011.

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