Guia da Semana

A hora e a vez do software livre

Com o apoio do Google, conceito de programas com código fonte aberto é cada vez mais popular.


Ilustração com GNU, mascote do primeiro programa feito com o conceito Software Livre, de mesmo nome, e Tux, mascote do Linux

Com a popularização de smartphones, netbooks e computadores de baixo custo, cada vez se ouve falar mais no software livre, principalmente depois do anúncio do Google de que lançará um sistema operacional próprio seguindo este conceito - programa que pode ser usado, copiado, estudado e redistribuído sem nenhuma restrição. No dia-a-dia, então, isto também pode ser sentido. O sociólogo Sergio Amadeu, professor de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, e um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, afirma que "o software livre tem avançado muito no Brasil e hoje não tem nenhuma grande empresa que não tenha alguma aplicação dele".

Para o especialista, a importância da adoção deste tipo de programa é tanta, que ele chegou a liderar a equipe que comandou a troca nos computadores do governo federal. Recentemente, o diretor de Tecnologia de Informação da Companhia de Informática do Paraná, Cláudio Dutra, afirmou que o estado já economizou cerca de R$ 300 milhões em licenças, desde a adoção do Software Livre em 2003. De acordo com Dutra, apenas nos primeiros três anos de uso, o governo do Paraná já somava uma economia de mais de R$ 127 milhões.

Mesmo o público leigo já usa programas assim, como Firefox, Picasa ou Wikipedia. Ao contrário do que muitos imaginam, a diferença entre um software livre e um proprietário é que no livre qualquer pessoa pode ler seu código e modificar para o desenvolvimento de novas versões, e não apenas ser pago ou n. O fato de ser livre não o torna gratuito, assim como há casos, como o Internet Explorer, que não há custo, mas não é livre. No caso dos sistemas operacionais, por exemplo, o usuário comum que optar por versões do Linux ou do FreeBSD, em vez do Windows 7, que deve ser lançado em outubro, pode economizar US$ 119 da licença.

Mas se programas com código fonte aberto podem ser cobrados, fica a dúvida de suas vantagens. Sérgio Amadeu deixa claro que "para empresas é fundamental ter o código aberto". Falando sobre um dos softwares livres mais populares do mundo, diz que "o Linux tem aproximadamente 150 mil desenvolvedores e usuários avançados. Quando soltam uma nova versão do sistema, esse pessoal corrige os problemas". Ou seja, como o código é aberto, mesmo que exista um erro, alguém logo descobre e distribui a correção para que o programa seja atualizado, o que o deixa mais seguro.

"Quando um código fonte é fechado, você tem que acreditar que aquele software não tem portas de entrada para intrusão, mas você não sabe. Se é aberto, mesmo que a pessoa não entenda, alguém pode analisar aquele código", afirma Sérgio. Tanto que, de acordo com o especialista, mesmo a Microsoft, quando vende para governos ou forças armadas, libera o código fonte. Por isso, empresas privadas e estatais como Casas Bahia, Rede Globo ou Banco do Brasil preferem este sistema, e mesmo alguns usuários comuns aderiram para não precisar comprar poderosos anti-vírus, que podem custar mais de R$ 1 mil. Sérgio, porém, avisa que "não é que todo software livre que é seguro, só que eu tenho condição de saber se ele é ou não seguro".


Logo do Chrome OS, sistema operacional desenvolvido pelo Google e que deve ser lançado apenas em 2010

Estudante de Sistemas para Internet da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Fernando Kanarski criou há quatro anos o site UnderGoogle sobre a grande sensação da internet, o que já lhe rendeu uma visita aos escritórios e conversas constantes com seus executivos. Acompanhando de perto as novidades, ele viu a dificuldade no lançamento do software livre Android, sistema operacional para celulares, mas já percebe mudança. "A quantidade de celulares está crescendo, o problema era no início que só tinha um aparelho que ainda era muito simples. Agora a HTC pegou o Android, colocou uma cara bonita, e estão surgindo mais opções". No Brasil, os primeiros aparelhos a usarem o Android são o HTC Magic e o Samsung Galaxy, ambos foram anunciados em 17 de setembro, e devem operar pela TIM. O preço sugerido para o modelo Samsung é de R$ 1.799, a HTC não informou valores.

Com o Chrome OS, que atenderá os netbooks, ele acredita que o processo será o mesmo. "No começo pode ser a mesma coisa que ocorreu com o Android, surgindo computadores não tão tops de linha, o que pode frustrar o usuário. Mas por ser um sistema aberto, a longo prazo eles vão ter um resultado bem legal". Assim, mesmo com preços tentadores, talvez valha a pena esperar mais um pouco para aproveitar o novo sistema, que deve ser lançado apenas em 2010. A vantagem, tanto de um como do outro programa, é que qualquer usuário com mais conhecimento pode desenvolver aplicativos para facilitar o uso, como acontece comumente com o Firefox, por exemplo.

Outra questão é a economia. Segundo Fernando, "por ser um software aberto, ele acaba deixando todo o investimento do produto no aparelho, então o fabricante não precisa se preocupar com o licenciamento". Exatamente por isso grande parte dos netbooks vendidos hoje no Brasil vêm de fábrica com o sistema Linux, em vez do Windows, o que pode gerar uma economia de cerca de R$ 300. Isto é notado também em computadores de mesa. Um exemplo é o BrOffice, que traz editor de texto, planilhas, entre outros. Enquanto o vendedor pode instalar ele gratuitamente em suas máquinas, a versão da Microsoft, o MS Office, tem licenças a partir de R$ 199, em sua versão doméstica, e R$ 1199, para empresas.

Para o Chrome OS, as expectativas de Fernando são altas. "O diferencial do netbook é justamente ter um sistema mais leve, então, tendo a entrada do Google, acaba alavancando o mercado, até por ser um sistema baseado na internet, que é o principal objetivo do netbook, e até agora não existe nenhum sistema para trabalhar especificamente com ela". Tanto o Chrome quanto o Android podem ser instalados em computadores comuns e até em carros e geladeiras, mas foram criados principalmente para netbooks e celulares. Assim, cada vez mais desenvolvedores devem criar novos aplicativos para os programas nestes aparelhos. Fernando, porém, conclui que "ainda falta um pouco de números e mercados para esses desenvolvedores se animarem".

Atualizado em 6 Set 2011.

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