Guia da Semana

Crítica: Blake Lively vive uma idosa num corpo de menina em “A Incrível História de Adaline”

Identidade é um segredo bem guardado para a protagonista que não envelhece

A fantasia é um terreno complicado da ficção. Ao mesmo tempo em que um autor pode brincar com todas as (im)possibilidades do mundo e distorcer quaisquer leis da física que deseje, ele precisa fazê-lo de forma convincente para seu público e sua história. No caso de “A Incrível História de Adaline”, um delicado romance mágico sobre uma mulher que não envelhece, o mesmo toque fantástico que dá origem à aventura, quando mal dosado, é o que acaba por quebrar seu encanto.

Blake Lively (da série Gossip Girl) comanda o longa com firmeza na pele de Adaline Bowman, ou Jenny, ou Amanda. Presa nos 29 desde um acidente de carro nos anos 20, ela desenvolve o hábito de trocar de identidade e endereço a cada década, para fugir de autoridades que possam querer estudá-la ou prendê-la, duvidando de seus documentos.

Desde o início, vários elementos curiosos são associados ao nascimento de Adaline, fazendo dela alguém “especial”. Ela foi, por exemplo, a primeira criança nascida no século, às 00h01 do dia 1º de janeiro de 1901 (data que entra em contradição mais à frente por um descuido do roteiro).

Só isso já bastaria para justificar a situação excepcional da personagem, mas, por alguma razão, os roteiristas vão além e criam diversas condições extremamente específicas para explicar a anomalia de forma mais “científica. Acontece uma neve fora de época, um raio e até um cometa. Com tantas coincidências desnecessárias, a magia se perde e o espectador deixa de acreditar na história antes mesmo de ela começar.

Se aceitarmos a questão fantástica, porém, a trama que se desenvolve no presente é um romance bastante simpático com o jovem Ellis (Michiel Huisman) – muito culto, pois é preciso ter bagagem para surpreender uma centenária. Mescla-se a ele um drama interessante sobre uma mulher cujos únicos amigos são um cão, uma cega e uma filha que se apresenta aos outros como sua avó (Ellen Burstyn).

Não há nada tão surpreendente no enredo, nem mesmo o fato de que o pai de Ellis (Harrison Ford) é um antigo namorado de Adaline. O público sabe que, em algum momento, alguém iria reconhecer a protagonista e forçá-la a se revelar, mas isso não chega a prejudicar a experiência. Afinal, quantas comédias românticas de sucesso não tiveram desfechos totalmente previsíveis?

Para quem acompanhava a série de TV “Forever” (recém-cancelada na Warner), “A Incrível História de Adaline” pode soar incomodamente familiar, tocando nas mesmas teclas do “filho” idoso e da erudição absoluta (associada a uma memória excepcional para datas e rostos). A verdade, contudo, é que nenhuma das duas obras conseguiu acertar o ponto exato do que significaria, para um ser humano, não ter que se preocupar com a morte ou com a velhice.

O longa, por essas razões, não funciona tão bem como ficção científica nem como discussão filosófica, mas nem por isso deixa de ter sua graça. Pelo contrário, Lively e o diretor Lee Toland Krieger garantem um filme romântico e divertido, gostoso para assistir a dois ou sozinho, numa tarde chuvosa. 

Atualizado em 21 Mai 2015.

Por Juliana Varella
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