Guia da Semana

“O Teorema Zero” denuncia solidão da vida hiperconectada

Linguagem surreal e irônica faz do novo filme de Terry Gilliam um desafio para o público

Para quem acompanha o universo da ficção científica, não é novidade ver o sentido da vida (do universo e tudo o mais) ser traduzido numa fórmula matemática. Em “O Teorema Zero”, novo filme de Terry Gilliam, a questão é entregue a um programador – Cohen Leth, interpretado por Christoph Waltz – que quase enlouquece tentando chegar a um resultado (ou, na verdade, apenas comprovar o frustrante resultado que lhe deram).

Gilliam é mais conhecido pelo trabalho como ator, roteirista e diretor no grupo Monty Python, mas é célebre entre alguns cinéfilos por suas ficções surrealistas como “Brazil – O Filme”, “Os 12 Macacos” e “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”. Pela temática, “O Teorema Zero” aproxima-se mais dos dois primeiros, mesclando, como aqueles, o humor de um personagem excêntrico à crítica social.

Crítica, aliás, que se aplica não ao futuro desenhado no filme, mas à realidade atual: as relações de trabalho, o consumo e a solidão no mundo hiperconectado são alguns dos alvos do olhar afiado do diretor e do roteirista, Pat Rushin.

Waltz impressiona no papel do funcionário exemplar, solitário por opção e perturbado pela expectativa de um telefonema que lhe dirá o sentido de sua vida particular. Sem saber, ele recebe a missão de provar o oposto do que acredita: um teorema no qual “100% deve ser igual a zero”, que  comprovaria que o universo é apenas uma explosão advinda do nada, que voltará ao nada – e que a vida, portanto, não tem nenhuma razão para existir.

Não é por acaso que Leth vive numa igreja abandonada. Sua casa-escritório é um caos entre estátuas de santos, vitrais centenários e um sofá cor-de-rosa: o futuro de Gilliam é o contraste entre o sonho de modernidade e a decadência da realidade fútil. Ao lado da igreja, funciona um sex-shop. Há uma obra barulhenta em frente à porta que não acaba nunca. Outdoors perseguem os transeuntes, super-heróis são os novos líderes espirituais e um grande luminoso resume a verdade: “O futuro já veio e passou. Não o perca da próxima vez”.

O trabalho de Leth não é claro: ele passa suas horas processando dados ludicamente (com uma mistura de bicicleta e video-game), sem saber qual é o resultado disso. Ele argumenta que prefere trabalhar em casa, já que a produtividade é maior e, no ambiente de trabalho, não há interação alguma com os outros funcionários. Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência.

Esse convívio social individualizado aparece também numa festa, onde os convidados ouvem suas próprias músicas em fones de ouvido, portando tablets e celulares e tirando “selfies” uns com os outros para se sentirem menos solitários. É curioso que, para o mesmo propósito, Leth utilize um recurso bem menos aceitável socialmente: ele se refere a si mesmo como “nós”.

Nesse mundo, até as relações sexuais se tornaram atividades solitárias: num dispositivo que lembra um pouco aquele usado por Sandra Bullock em “O Demolidor” (1993), Leth conecta seus impulsos elétricos aos de Baisley (Mélanie Thierry), uma prostituta com quem cria um laço frágil de amizade, transportando-os através do computador para uma dimensão imaginária e segura.

Também é virtual a psicóloga (Tilda Swinton), que não passa de um programa calculado para ajudar o paciente até o ponto conveniente para seu chefe – o gerente (Matt Damon). Quem parece ser o mais “humano” dos personagens é Bob (Lucas Hedges), um adolescente gênio da informática que tenta fazer as próprias escolhas e tem consciência do sistema autoritário em que se encontra, mesmo que não consiga fugir dele.

“O Teorema Zero” não pode ser visto com olhos literais. Cheio de referências (de “2001: Uma Odisseia no Espaço” ao livro de Eclesiastes) o filme questiona a si mesmo enquanto ficção científica - gênero responsável por imprimir no homem o sonho do futuro tecnológico. Aqui, esse futuro é virtualizado, desumanizado: os sentimentos são a tal ponto convertidos em dados que deixam de ser sentidos de fato.

Gilliam defende a busca de sentido no caminho inverso: dentro da humanidade ou de uma espiritualidade desacreditada. Ao mesmo tempo, deixa aberta a questão, sugerindo que, talvez, não haja mesmo sentido – como fez em “Monty Python e o Sentido da Vida” (1983).

O teorema, em si, tem pouca importância na jornada de Cohen Leth: é a descoberta do outro e, sobretudo, da comunicação, que lhe confere o sentido que procurava. A matemática, enfim, é apenas o recurso desesperado para todas as outras pessoas, que já desistiram de procurar.

Assista se você:

  • Gosta de ficção científica
  • Gostou dos outros filmes de Terry Gilliam
  • Procura um filme que vai te fazer pensar

Não assista se você:

  • Não gosta de ficção científica
  • Não gostou de “Brazil – O Filme” ou “Os 12 Macacos”
  • Procura uma comédia leve

Atualizado em 11 Jul 2014.

Por Juliana Varella
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