Guia da Semana
Cinema
Por Juliana Varella

Entrevista: Relatos Selvagens

Damián Szifrón e Erica Rivas falam sobre cinema, festivais e selvagerias do mundo moderno.

Erica Rivas interpreta uma noiva traída no filme Relatos Selvagens (Divulgação)

Damián Szifrón tem 39 anos e mais de três milhões de espectadores. Diretor de “Relatos Selvagens”, o jovem argentino viu seu novo filme se tornar um verdadeiro fenômeno de bilheterias em seu país, ser exibido em Cannes e, mais recentemente, ser escolhido para disputar uma vaga no Oscar 2015. Mas esses festivais não lhe dizem muto: o que faz brilharem seus olhos são os números.

No Brasil para promover o filme ao lado da atriz Erica Rivas, o cineasta conversou com a imprensa e revelou sua paixão por blockbusters. “Quando crio, imagino uma sala cheia de gente”, confessa empolgado. Não por acaso, seus filmes favoritos foram grandes sucessos de bilheteria: “O Poderoso Chefão” e “Tubarão” estão na ponta da língua. Para ele, é essa mistura de arte e espetáculo, de boas histórias e grandes cifras, que faz a diferença para o espectador e que pode ser transformadora.

Se seus “Relatos” vão ter esse efeito, ainda não se sabe, mas com certeza darão o que falar. O filme reúne seis histórias de pessoas que, diante da injustiça e da indignação, perdem completamente o controle. Erica Rivas, que vive a personagem mais descontrolada do longa e estampa os pôsteres com um vestido branco ensanguentado, acha que sim. “O filme está trazendo de volta na Argentina essa cultura de ir ao cinema, ver as reações dos outros e discutir após a sessão”.

Rivas parece saborear esse momento mais do que o próprio diretor: formada em psicologia, ela conta que sempre precisou conciliar outros trabalhos com a carreira de atriz e sonhava com o dia em que seria reconhecida pelo que realmente gosta de fazer. Apesar disso, diz não ter olhos para estatuetas. “O que me interessa nos festivais é o intercâmbio de experiências, não os prêmios”, garante, e alfineta: “O Oscar não é um mercado a que me interessa particularmente agradar”.

Para Cannes, porém, onde esteve neste ano pela primeira vez, guarda palavras mais doces: “De lá saíram muitos atores e diretores que me formaram como pessoa. Estar lá, mesmo sabendo que não tínhamos nenhuma chance com um filme de comédia, foi maravilhoso”.

Szifrón concorda, apesar de não rejeitar especificamente nenhum dos festivais. “A pessoa se lembra do filme de que gostou, não do que ganhou prêmos”, explica. “A lógica competitiva não combina com a arte. Há filmes que nunca ganharam prêmio nenhum, mas para mim são essenciais”.

Tanto Rivas quanto Szifrón começaram suas carreiras na televisão argentina, mas os dois vêm se afastando dessa mídia – ele, para o cinema; ela para o teatro. O diretor defende que fazer um filme ficou mais fácil com o avanço da tecnologia. “Hoje qualquer um consegue comprar uma câmera e montar uma ilha de edição em casa. Difícil é fazer um bom roteiro.”

Já Erica está encenando a peça “Credores”, de August Strindberg, e vai estrelar “Cenas da vida conjugal”, de Ingmar Bergman, em Mar Del Plata, ao lado do colega de “Relatos” Ricardo Darín.

Quando questionado sobre o ator mais famoso de seu país, Szifrón não poupou elogios e notou que sua popularidade ajuda a derrubar o mito da inferioridade do cinema nacional. “O povo argentino prefere ver um filme protagonizado por Darín a ver Tom Cruise, Harrison Ford ou outro ator de Hollywood”.

O povo pode preferir filmes locais, mas o mercado, ao que parece, não anda favorecendo os vizinhos mais próximos. Segundo os dois entrevistados, filmes brasileiros raramente chegam aos cinemas argentinos, assim como os de outros países sul-americanos. O último de que se lembram é “Cidade de Deus”, de 2002.

“É muito injusto que cheguem mais filmes dos Estados Unidos do que do Brasil”, lamenta Rivas, um pouco envergonhada. “O povo fica acostumado a ver um jeito de contar histórias que é americano... É difícil que ele busque algo diferente”.

Diferente foi o que ela criou em seu papel de noiva traída. A atriz revela que analisou a situação da personagem como uma grande metáfora: “Não era só destruir o marido infiel, mas destruir a instituição matrimonial, destruir a realidade em que eles acreditavam, destruir-se como mulher, e reencontrar-se”.

A metáfora se estende para todo o filme – talvez o problema não seja exatamente o motorista do outro carro, o atendente no guichê de reclamações. Nas palavras de Szifrón, “esse sistema exige a desigualdade para funcionar, e toda a nossa vida está atravessada por isso”. O jeito é exorcizar esses demônios com um pouco de selvageria.


Por Juliana Varella

Atualizado em 17 Out 2014.

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