Guia da Semana

“Azul é a Cor mais Quente” chega para desafiar preconceitos

Vencedor da Palma de Ouro aborda relação de amor e desejo entre duas mulheres

Finalmente chega ao Brasil o vencedor do Festival de Cannes deste ano, Azul É a Cor mais Quente. Quem quiser ficar por dentro de uma das maiores polêmicas do ano terá de encarar três horas de câmeras extremamente detalhistas nas mãos de Abdellatif Kechiche, mas não sairá arrependido. O diretor tunisiano, criado na França, explora até o limite suas belíssimas atrizes e mergulha em suas decepções amorosas, arrastando consigo seus espectadores atordoados.

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O longa, que retrata a relação de amor entre duas mulheres (uma terminando a faculdade, vivida por Léa Seydoux, e outra no Ensino Médio, interpretada por Adèle Exarchopoulos), não deve seu escândalo apenas ao tema espinhoso. Pouco após a entrega do prêmio francês, as atrizes declararam que o diretor violara as leis trabalhistas e explorara o elenco com horas extras, repetições infindáveis de takes e muita pressão psicológica.

Em réplica, Kechiche afirmou que o trabalho de um ator era “o de uma criança mimada, que acorda, é arrumada, grava alguns takes e é lindamente iluminada”. Mais tarde, o diretor ainda ameaçou processar sua protagonista mais velha.

A lavagem pública de roupa suja lembra a relação entre as personagens Adèle (nome emprestado da atriz) e Emma (Seydoux) em cena. Apaixonadas, elas conhecem cada pedaço do corpo uma da outra e se entendem muito bem entre quatro paredes, mas são como água e vinho fora delas.

Adèle, 19 anos na vida real e algo perto disso no filme, ainda não sabe que é lésbica. A dúvida aparece quando suas amigas a pressionam para que se envolva com um garoto e ela o faz – mas detesta a experiência. Paralelamente, ela cruza com Emma na rua e quase é atropelada de tanto olhar para a garota de cabelos azuis.

Além de mostrar a descoberta sexual, “Azul...” discute a impossibilidade do amor diante de certas diferenças. Na verdade, apesar de Kechiche insistir que este é um filme sobre o amor, o que se vê é a paixão em sua forma mais pura. As duas se encantam, conversam superficialmente, sentem o coração bater na garganta, conhecem suas famílias, se perdem na cama... Mas não se amam. Pelo contrário: vivem tentando mudar uma à outra.

Se Emma fica incomodada com o fato de Adèle não assumir publicamente sua sexualidade, no fundo o que realmente a perturba é a escolha de vida da parceira: uma professora de primário, profissão (pasmem!) considerada “segura” e “careta”, enquanto ela é uma artista. Adèle, por sua vez, não consegue se misturar com os amigos boêmios da namorada e se faz invisível nas vernissages, como nas ruas durante a Parada Gay - ao contrário de outros protestos de que participa com os amigos, onde grita e se descabela sem pudor.

Os cabelos, aliás, são uma marca da personagem. Adèle os prende como se os punisse, criando nós insolúveis que deixam cair muito mais do que um charmoso fio sobre os olhos. E a boca... Kechiche as filma como se quisesse falar por meio delas: seja nos beijos, nas falas, nas refeições enquanto engole uma garfada de macarrão. Há algo de escatológico, que contrasta com a limpeza da cena de seis minutos de sexo explícito. Não que ela seja fácil – desafio o leitor a não desviar o olhar, constrangido ao invadir a privacidade daquelas duas garotas.

Para um filme de três horas completas, o espectador sentirá falta de ações e viradas mais inesperadas – afinal, a história é a de um único relacionamento, sem mais. Há, também, alguns clichês que tornam o percurso cansativo, como as cenas de leituras em sala de aula, que seriam interessantes se já não tivessem sido usadas em tantos outros filmes franceses, ou os jantares em família, com os pais caricatos em ambos os lados.

Apesar disso, o que fica grudado na memória não é o enredo, mas sim o sentimento. É tão fácil se identificar com a insegurança de Adèle – seja você hétero ou homossexual, homem ou mulher – que “Azul...” deixa de ser um drama, ou uma pornografia como o acusaram, para ser um romance “de formação”, sobre o crescimento emocional de sua personagem. Sem julgamentos, sem preconceitos.

Assista se você:

- Procura um filme sincero sobre relacionamentos

- Quer ver o filme que venceu o Festival de Cannes

- Gosta do cinema francês

Não assista se você:

- Não gosta de filmes lentos ou longos

- Fica desconfortável com cenas de sexo explícito

- Procura um filme mais “água com açúcar”

Atualizado em 6 Dez 2013.

Por Juliana Varella
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