Guia da Semana

Crítica: “O Novíssimo Testamento” é uma comédia ousada e refrescante

Comédia mostra Deus como um homem comum e cheio de defeitos

Digamos que você não goste desta época pré-Oscar, quando todos os cinemas estão ocupados com filmes cobertos por selos de aprovação hollywoodiana. Ou pior: você simplesmente gosta de filmes mais alternativos e não consegue encontrar luz no fim do túnel em pleno janeiro de férias escolares e pipocões. Não é isso? Então, talvez, você até goste de blockbusters, mas tenha se cansado e resolvido procurar refúgio numa obra um pouco mais... Desafiadora. Não se preocupe, é para isso que estamos aqui.

Se, por qualquer razão, você está procurando alguma coisa diferente para assistir neste final de semana, a dica é a comédia belga “O Novíssimo Testamento”, de Jaco Van Dormael (mesmo diretor de “Sr. Ninguém”, drama com Jared Leto lançado em 2009). O filme conta a história da filha de Deus (isso mesmo) que, cansada da tirania do pai (um homem comum e rabugento, que vive trancafiado no escritório, em sua residência em Bruxelas), decide chacoalhar um pouco as coisas na Terra.

A banalidade com que a divindade é retratada é o que faz o filme ser tão interessante. Primeiramente, Deus mora num apartamento comum, com uma esposa submissa e uma filha pré-adolescente. O filho, como você já deve ter imaginado, saiu de casa há algum tempo, mas a mãe continua colocando seu lugar à mesa.  

Tudo começa quando Ea (Pili Groyne), a tal filha, entra escondida no escritório do pai e descobre todas as maldades que ele tem praticado com os humanos, por puro sadismo. Depois de levar uma bronca e uma surra de cinta, ela decide agir: envia a todos os humanos as datas de suas mortes e vai à Terra reunir seis apóstolos e escrever um Novíssimo Testamento (por sugestão do irmãozão, J.C.).

A aventura de Ea tem seus altos e baixos. Acompanhada por um mendigo, ela visita seis pessoas aleatórias (uma delas é interpretada pela atriz Catherine Deneuve) e realiza pequenos milagres, mostrando compaixão por suas histórias, todas marcadas pela solidão. Nesse processo, umas se mostram mais interessantes que as outras e, em alguns momentos, o espectador pode se cansar, mas a surrealidade da situação nunca deixa de martelar, dando novos significados a cada cena. O final, certamente, dividirá opiniões, mas não se pode negar que é ousado.

“O Novíssimo Testamento” coloca algumas questões na mesa além do humor, como, por exemplo, o efeito que a consciência da mortalidade poderia ter nas vidas das pessoas. É curioso pensar que, apesar de sabermos que não somos eternos, nossas ações são pensadas como se vivêssemos para sempre. Numa situação extrema como essa, talvez o trabalho  fosse tirado do jogo, a segurança perderia o sentido e Deus, incapaz de salvar a qualquer um, seria desacreditado ou deixaria de ser fonte de esperança para se tornar, apenas, um consolo.

O filme está em cartaz no Reserva Cultural, em São Paulo, e estreia no dia 28 em cinemas selecionados no Rio de Janeiro.

Atualizado em 22 Jan 2016.

Por Juliana Varella
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