Guia da Semana
Teatro
Por Juliana Varella

Comédia: uma peça-chave para o cinema nacional

Donas de bilheterias milionárias, as comédias são o pesadelo dos críticos, mas nosso cinema precisa delas.

Mato Sem Cachorro apostou no improviso e contou uma história romântica com bom humor em 2013 (Divulgação)

Só de comédia vive o cinema brasileiro? Quem observa a publicidade na TV e acompanha os números das bilheterias pode ter a impressão de que o Brasil só produz filmes de humor, com uma ou outra exceção.

A realidade, entretanto, passa bem distante disso: dos 19 longas brasileiros lançados comercialmente em 2014 até agora, apenas quatro foram comédias: Muita Calma Nessa Hora 2, S.O.S. Mulheres ao Mar, Copa de Elite e Julio Sumiu. O que acontece é que o sucesso desse gênero é muito maior: os dois primeiros filmes, juntos, atraíram cerca de 2 milhões de pessoas, quase um terço de toda a bilheteria nacional nesse período.

Copa de Elite

Paralelamente, o ano viu surgirem experiências novas, que tentaram se livrar dos clichês televisivos e arriscar, pisando em gêneros pouco tradicionais por aqui. Quando eu era Vivo, misturou suspense e horror; Entre Nós também apostou no suspense, mas numa abordagem mais psicológica; Hoje eu Quero Voltar Sozinho mostrou um romance adolescente com pegada indie que competiu em festivais internacionais e causou frisson antes mesmo de estrear – como Praia do Futuro e O Lobo Atrás da Porta, que vêm aí.Em outras palavras: o cinema brasileiro vai muito bem, obrigado! E deve muito a essas mesmas comédias.

O dinheiro está onde é mais seguro

Para entender a relação do cinema nacional com a comédia, é preciso pensar no sistema de produção e distribuição de filmes no Brasil. Ter seu nome associado a uma determinada empresa pode garantir verba, visibilidade e números inflados à sua produção – mas não liberdade criativa. Por outro lado, financiar o próprio projeto (ou recorrer ao crowdfunding) pode ser uma opção alternativa, mas os recursos serão limitados e o circuito, também.

Em busca de uma solução segura e relativamente barata, é natural que os investidores prefiram apoiar comédias, já que o retorno de público é garantido. Nenhuma novidade aqui: o mesmo acontece nos EUA (em proporções astronomicamente maiores), com filmes de ação, sequências e remakes. O seguro é inimigo da inovação, mas é necessário para que a engrenagem continue rodando.

Cena de S.O.S. Mulheres ao Mar, com Giovanna Antonelli

Sucesso x prestígio

A questão fica mais delicada à medida que adicionamos o fator “prestígio” à análise. Se os filmes cômicos são de longe os mais rentáveis, isso normalmente se dá sem o apoio da crítica e, a longo prazo, quem carrega a fama do país são os dramas políticos ou sociais (Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropa de Elite, O Som ao Redor...).

Além disso, parte do público rejeita o formato pastelão das comédias, que remetem a programas de TV e espetáculos teatrais e raramente exploram as possibilidades do cinema como linguagem – isso no Brasil e no mundo. Esse espectador decepcionado e pouco informado, prejudicado pela fraca publicidade dos filmes independentes, cria uma rejeição generalizada ao cinema nacional, repetindo a máxima de que “é tudo igual”.

Ruim com elas, pior sem elas

Sem a comédia (pastelão ou não), porém, o cinema brasileiro seria praticamente invisível. A indústria precisa de números como os de Minha Mãe é uma Peça para continuar crescendo e competindo com o cinema internacional – que, hoje, ainda ocupa 80% das bilheterias no país.

Minha Mãe é uma Peça

Boas comédias atraem, além do público momentâneo, o respeito e a curiosidade do público em geral pelos próximos filmes nacionais. É preciso que sejam boas, é claro – não vale juntar meia dúzia de piadas prontas e alguns rostinhos famosos. O público aceita filmes fracos, “para não pensar”, mas sempre responde melhor a quem consegue aliar entretenimento e arte.

O boca-a-boca, nesses casos, faz um trabalho melhor do que os intervalos comerciais e o filme continua rendendo por anos a fio – como foi o caso de Dona Flor e seus Dois Maridos, sucesso comercial na época que é reconhecido até hoje como uma obra-prima do cinema brasileiro.

Mauro Mendonça, Sônia Braga e José Wilker em Dona Flor e seus Dois Maridos

Novos nomes, novas tendências

A verdade é que, mesmo dentro de um mesmo gênero como a comédia, nem tudo é igual. Nos últimos anos, o improviso tem sido incorporado à fórmula em doses cada vez maiores, atraindo aos cinemas humoristas vindos do stand-up e de coletivos como o Porta dos Fundos. O grupo, aliás, promete um longa-metragem para 2014 ou 2015 – esta será a primeira vez que a chamada “nova geração” terá controle sobre o roteiro e a produção, podendo mostrar nas telas algo mais próximo do que acontece hoje na internet.

Equipe do grupo Porta dos Fundos

Outro caminho que se abre para o humor nacional é o da sátira. Hoje, há uma quantidade suficiente de títulos nacionais bem sucedidos nas bilheterias para que o público responda a referências, como em Copa de Elite, e comece a se criar um diálogo mais consciente sobre o próprio cinema.

Seja qual for o caminho, a comédia brasileira pode escolher ajudar o cinema nacional a crescer, formando um público capaz de apreciar bons roteiros, boas direções e atuações em qualquer gênero, ou continuar alimentando o preconceito já enraizado contra este cinema que, para parafrasear Copa de Elite, “só tem putaria e palavrão”.  


Por Juliana Varella

Atualizado em 16 Abr 2014.

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