Guia da Semana

O ciclo do café

Conheça a trajetória brasileira da bebida mais consumida no mundo, depois da água.

Foto: Museu do Café


A propagação do consumo do café se deu na Arábia. Depois de se espalhar pelo Oriente Médio, a bebida conquistou a Europa, em 1615. A planta só chegou ao Brasil, em 1727, trazida pelo oficial Francisco de Mello Palheta, da Guiana Francesa, a pedido do governador do Maranhão. Desde a plantação da primeira muda, o café se espalhou rapidamente pelo país, graças às condições climáticas favoráveis, grande extensão territorial e mão-de-obra vasta e barata, e acabou se tornando a base da economia brasileira durante muitos anos.

A cafeicultura foi responsável por desenvolver a infraestrutura do país, impulsionar correntes imigratórias, inserir o Brasil no comércio internacional, entre outras transformações políticas, sociais e econômicas significativas.

Da primeira muda ao pólo exportador

Foto: Museu do Café


As plantações de café migraram do Pará e Maranhão para os grandes cafezais do Rio de Janeiro, chegando a São Paulo e, finalmente, ao Vale do Paraíba, iniciando, em 1825, um novo ciclo econômico no país. Porém, devido a uma grande erosão na área, a região oeste de São Paulo tornou-se o novo pólo produtor, transferindo o centro de escoamento do porto do Rio de Janeiro para o de Santos. Este período coincide com a substituição da mão-de-obra escrava pela de imigrantes, atraídos por políticas governamentais. Os italianos foram os primeiros a trabalhar nos cafezais, seguidos pelos portugueses, espanhóis e japoneses.

A cafeicultura foi fundamental para o surgimento de agrupamentos urbanos na região Sudeste, onde se criou um complexo sistema de ferrovias e rodovias para o transporte do grão. No final do século 19, 70% do café mundial era de origem brasileira. "De 1890 até hoje, somos os maiores produtores de café do mundo", afirma Concetta Marcelina, professora do curso de Barista do Senac São Paulo.

As crises


Foto: Museu do Café


Além das graves geadas que destruíram plantações inteiras, o excesso de produção nos primeiros anos do século 20 e a queda da bolsa de valores de 1929, resultaram na maior crise enfrentada pelos cafeicultores brasileiros. Para solucionar o problema da superprodução, a oligarquia cafeeira empreendeu uma política de valorização do café que  em 1906,  no Convênio de Taubaté, fez um um plano de intervenção estatal que se baseava na compra das sacas excedentes com o objetivo de assegurar os lucros dos latifundiários.

A Política do Café com Leite, período em que paulistas (elite cafeicultura e industrial) e mineiros (pecuaristas e industriais do ramo lácteo) se alternavam na presidência, é outro fato histórico que evidencia a relação entre a política e a cafeicultura no Brasil.

A atual crise mundial também afetou o setor cafeeiro. "O preço dos insumos agrícolas (defensivos, adubos, etc) aumentaram, elevando os custos de produção e reduzindo, consequentemente, a rentabilidade", afirma Concetta.

O café e a industrialização


Apesar das tentativas, a crise de 29 gerou enormes impactos na comercialização do produto, fazendo com que os latifundiários passassem a direcionar seus investimentos para outras culturas e para o desenvolvimento da atividade industrial. O acúmulo de capitais, propiciado pela cultura do café, a rede de transportes, a modernização dos portos de Santos e do Rio de Janeiro, a mão-de-obra qualificada dos imigrantes e o crescente mercado consumidor urbano foram decisivos para a industrialização do Sudeste, responsável, em grande medida, pelo desenvolvimento da região.

Qualidade do café brasileiro


Além de sermos o principal país exportador do produto, o que explicaria a fama do café brasileiro? Segundo Concetta, o status de qualidade e melhor sabor do grão nacional são fenômenos recentes, já que, por muitos anos, o Brasil exportou café sem nenhuma seleção. "O processo seletivo só aconteceu por uma tendência mundial que exigia melhor qualidade. A extensão territorial do Brasil e diversidade de micro-climas nas regiões plantadoras de café geraram um produto final de qualidade diferenciada", diz a especialista.

Graças à iniciativa de alguns produtores, o país voltou a dividir o pódio dos melhores cafés com a Etiópia, Quênia, Costa Rica e Colômbia. "Raramente tomaremos um expresso no mundo que não tenha café brasileiro em sua composição", afirma Isabela Raposeiras, professora do curso de Tecnologia em Bebidas da Universidade Anhembi Morumbi.

O mercado hoje


Desde que o café ganhou as terras do Sudeste, os estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Espírito Santo e Rio de Janeiro são os grandes produtores. Atualmente, a Bahia e Rondônia também têm plantações. O fato do café ter alcançado o posto de segunda commodity mundial em faturamento, perdendo apenas para o petróleo, valorizou-o ainda mais no mercado, gerando frutos para a economia nacional. "O café emprega pessoas na colheita, processamento, beneficiamento, classificação, corretagem, torra e, atualmente, no setor varejista, cujo faturamento aumenta exponencialmente a cada ano", afirma Isabela. Empresas brasileiras, como a da indústria de maquinário para beneficiamento do grão, são referências no setor, exportando máquinas para todo mundo.

Na última década, nota-se também uma mudança no hábito de consumo da bebida. Segundo a especialista da Anhembi Morumbi, a demanda pelos cafés da categoria especial e o trabalho dos baristas vem valorizando o produto e agregando valor a uma bebida.

Atualizado em 7 Ago 2012.

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