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Restaurantes
Por Redação Guia da Semana

Prepare a mandinga

O folclore, a história e a sabedoria popular deram significados diversos ao simples ato de comer. Separe os patuás, tire o gato preto da cozinha, verifique se é dia ou noite, e conheça um pouco mais sobre essas superstições culinárias.

Frutas do mal: elas aparecem em boa parte das lendas culinárias

Em um Brasil antigo, anterior à colonização, as mulheres virgens tinham privilégios na cozinha. Simplesmente porque ainda não tinham iniciado a vida sexual, elas eram responsáveis por mascar a mandioca brava e, assim, dar continuidade ao processo de fermentação de uma primitiva bebida alcoólica. Quando estavam menstruadas, no entanto, as mesmas mulheres eram afastadas da culinária, pois o sangue perdido tinha uma intrínseca relação com o humor e, conseqüentemente, com o equilíbrio da comida que seria ingerida mais tarde por toda a tribo.

Séculos se passaram depois do surgimento dessas tradições, mas, mesmo assim, algumas delas permanecem vivas no hábito alimentar brasileiro. A explicação para elas sobreviveu em poucos escritos de pesquisadores quinhentistas - como os holandeses Theodore de Bry e Hans Staden, que registraram esse tipo de costume em gravuras e relatos -, e, em sua grande parte, se perdeu. Porém, tal fato é, na verdade, um mero detalhe para quem ouve desde criança que é preciso cortar a ponta do pepino para retirar o veneno que o legume possui nessa região, por exemplo. "Lembro da minha avó fazendo isso e nunca deixei de segui-la. É sagrado: corto a pontinha do pepino, a esfrego no próprio corte, jogo fora essa lâmina que encostou no veneno e só então continuo a trabalhar com ele", diz a chef Mara Salles, do brasileiríssimo Tordesilhas, em São Paulo.

Colher dentro de panela cheia:
cruz credo!
Crédulos ou não, os clientes de seu restaurante consomem sempre um pepino livre de qualquer maldade. E ainda contam com a proteção de São Benedito - padrinho da cozinha - devidamente instalado em um altar. "Todo dia, em 21 anos de casa, damos um café para o santo. É a primeira coisa que fazemos e, nesse tempo todo, nunca tivemos acidentes graves por aqui", afirma a chef. Conhecedora da cultura nacional, Mara se considera uma "supersticiosa discreta" e cita um personagem de Ariano Suassuna para explicar sua fé. "´Não sei, só sei que é assim´, fala o João Grilo no Auto da Compadecida. E acho que é isso mesmo. A tradição é muito sábia para ficarmos questionado".

Algumas dessas tradições já estão tão arraigadas à história brasileira que, às vezes, é difícil saber até que ponto são lendas ou não. É o caso da ordem correta de se adicionar o tempero a uma receita. "A técnica tradicional de culinária diz que devemos colocar primeiro a cebola e depois o alho na panela. Mas no Brasil, tem-se o costume de fazer o contrário, desde sempre", lembra Mara, que também não se atreve a misturar manga com leite em nenhuma de suas criações - mesmo que seja em casa. "Não faço e não como manga com leite de jeito nenhum. Sei que existe uma explicação histórica para essa lenda, mas eu não ouso mudá-la".

Comer banana dá pesadelo?
Assim como a chef, muita gente descarta a manga com leite do cardápio por acreditar que faz mal - da mesma maneira que, reza a lenda, comer banana durante a noite pode provocar uma série de pesadelos no decorrer do sono. A nutricionista Fátima Nunes, especializada em bioquímica, dispensa qualquer uma dessas superstições. "Na época dos engenhos, os senhores inventaram essa história de que manga com leite faz mal para os escravos não se aproveitarem das fartas mangueiras. Hoje, isso tudo não tem nada a ver e a pessoa pode ficar com carência nutricional se acreditar em todas essas lendas", diz ela.

Assuntos chatos perto do fogão
atraem o coisa ruim
Em Natal, no Rio Grande do Norte, onde mora, Fátima diz que é costume evitar o consumo de camarão, frutos do mar, macaxeira e outros produtos regionais depois de uma cirurgia. Segundo a tradição - seguida até por alguns cirurgiões plásticos da cidade - essas iguarias são consideradas alimentos carregados e, no sentido mais religioso da palavra, podem deixar a pele flácida e trazer outros malefícios em um pós-operatório. "Quando tive filho, mesmo sabendo que o parto era normal, minha mãe quase surtou quando me viu consumindo camarão". Mas a mística envolvendo o ingrediente, abundante na região Nordeste, é infundada de acordo com a nutricionista. "O camarão possui uma proteína que muitas vezes não consegue ser digerida pela falta de uma enzima no organismo de algumas pessoas. Quem não tem essa intolerância, pode comer normalmente", explica ela.

De simples fatos pontuais, alguns acontecimentos naturais sofreram ao longo do tempo uma espécie de generalização. Essa repercussão popular atingida por alguns males - como a doença alérgica provocada pelo camarão, por exemplo - é a responsável por transformar os achismos em crenças, obedecidas e cultuadas em todo o Brasil. Embora a maioria seja proveniente de suposições sem comprovação, alguns desses tabus têm lá sua relação real com a saúde. "Evitar tomar banho depois de comer tem um fundamento. Quando a pessoa consome um prato pesado, seu sistema circulatório gasta mais oxigênio para ingerir as proteínas e, assim, o fluxo de ar fica dificultado. Se a pessoa está se movimentando muito durante o banho, o risco de uma indigestão é real", analisa Fátima.

Por isso, é melhor tomar banho ou nadar apenas depois de fazer uma refeição leve, sem exageros. Nos demais casos, o que vale mesmo é a fé na mandinga e a aposta em uma das máximas da nutricionista. "Pense que esses tabus são como chaves e nós, as fechaduras. As chaves até podem ser iguais, mas nós somos bem diferentes", conclui ela.

Yo no creo en brujas, pero...

Sal derramado na mesa é mau-agouro
É impossível saber o quanto de real existe nessa superstição. Mas na opinião de Mara Salles, o melhor a fazer é retirar rapidamente qualquer sal que caia na mesa.

Colocar uma abóbora ao lado da porta de um restaurante concentra qualquer energia ruim que quiser adentrar no local
Esse é um hábito venezuelano: selecionar as maiores abóboras e colocá-las ao lado das portas faz com que o clima ruim não se espalhe pelo salão.

Ao preparar o caruru da festa de Cosme e Damião, é preciso deixar sete quiabos inteiros para satisfazer aos meninos
Esse tradicional prato servido no Nordeste deve ser acompanhado por uma promessa. Para ter um êxito no pedido, é importante colocar sete quiabos pequenos e inteiros e ofertá-los às crianças - símbolo das festividades de São Cosme e Damião.

A comida feita por mulheres durante o período da menstruação pode fazer mal ao organismo de quem a ingere
O fato de cozinhar menstruada em si não faz mal a ninguém. Mas para quem acredita em energia, a superstição tem um fundamento. Na época da menstruação - antes dela, na maioria das vezes - as mulheres costumam ficar irritadas e transferem para o preparo dos alimentos essa energia negativa. É ela que pode interferir no resultado do prato e, posteriormente, no organismo de quem a consumir.

Acredite se quiser...

  • É proibido oferecer o primeiro ou o último bocado para alguém - dessa maneira, oferece-se também o sentimento da pessoa amada ao convidado.
  • Vinho derramado é sinal de alegria, farinha no chão remete à fartura e dinheiro em mesa de comida pode significar miséria
  • Deixar a bolsa no chão durante uma refeição pode contribuir para o dinheiro "saia correndo"
  • O primeiro pedaço de um bolo deve sempre ser oferecido a alguém querido. No entanto, esses pedaços não devem ser dirigidos ao dono da casa, pois pode ser um jeito de desejar sua morte
  • Se uma pessoa engasgar durante uma refeição, basta fazê-la olhar para cima, colocar a mão na testa e invocar São Brás


  • Fotos: www.morguefile.com

    Atualizado em 7 Ago 2012.

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